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LIFE & LOVE

A COTA DA NIGHT | QUANDO SAIS À NOITE E PERCEBES QUE JÁ NÃO TENS 20 ANOS

26 Abril, 2017

 

 

Amigas, estou aqui que não posso!

 

Dói-me TUDO. Dói-me os pés, as cruzes, as orelhas, os calcanhares, os tornozelos, o braço, o ombro e, especialmente, a cabeça.

 

Quando ouvia os amigos ou familiares mais velhos proferir as belíssimas verdades de La Palisse que começavam sempre com um “vocês quando forem mais velhos é que vão ver…”, ou “quando chegarem à minha idade…”, ou ainda “aproveitem enquanto podem…” achava sempre que eram queixumes próprios de uma idade mais avançada, presa à juventude que já foi . Mas o que eram frases ocas e comuns tornaram-se agora evidências irrefutáveis.

 

A sério, pessoal que está nos seus “vintes”, aqui a “Cota-da-Anterior-Night” aconselha, aproveitem porque há qualquer gatilho na genética dos nossos cromossomas de Homo Sapiens Sapiens Erectus Dançantes que faz com que a partir dos 30 o corpo comece a não-reagir a certos estímulos.

 

Neste caso concreto, estou a falar de saídas à noite e em bom português, RESSACAS… várias!

 

Na segunda-feira o maridão chegou a casa com um convite irrecusável, sair para bebermos um copo e darmos uns passinhos de dança no Park porque ia haver Dj-Set de Branko. Ohhhhh yeaaaahhhh! Super ON!

 

Primeira reacção: “Claro que sim! VAMOS!”.

 

Segunda reacção: “Espera lá, mas eu trabalho amanhã, apesar de ser feriado!”. Ele, “Ah, então vamos cancelar”. Antes que ecoasse um som mental de “won,won, won, woooonnnnn (desânimo em cartoon)” eu voltei com um sorriso e reforcei “BORA! Que se lixe! Eu aguento! Vamos e logo se vê!”.

 

E foi aquilo que se viu…

 

Marta galvanizada a dançar baile funk e outras sonoridades do género, a beber o seu copinho e a rir como se não houvesse amanhã, numa ida ao Park, que era apenas de uma horita, prolongou-se até às 3h da manhã. Eu, de boa, a fingir que era uma menina enxuta de 18 anos. Ppppfffff… “De mim não fazem canoas”, pensei várias vezes, apesar do cansaço e da velhice já estarem a cutucar o fundo do meu cóxis.

 

Pois que só vos posso dizer que na terça-feira, quando três horas depois de me ter deitado o famigerado despertador do telemóvel tocou apeteceu-me verter uma lagriminha de dor e desespero. #NINGUÉM MERECE.

 

Aquilo que nos nossos “vintes” era apenas um ligeiro cansaço, uma pequenina pontada na cabeça e um corpo mais lento no dia depois da farra, hoje, toma contornos de atropelamento por comboio, não reacção a estímulos exteriores, sejam de que ordem de grandeza forem, não focagem visual perante um ecrã cheio de trabalho e uma fraca articulação de palavras quando nos é perguntado a simples questão “quer contribuinte na factura?”. Estive ZOMBI o dia todooooooooooooo! Que vergonha!

 

O que é que se passou, corpo meu?!

 

É que vocês não estão bem a ver a gravidade da situação…

 

Eu era a rainha da noite. Não no sentido perpetrado pelos “Excesso”, se bem que é um clássico que evoco com bastante frequência, mas no sentido se ADORAR sair à noite. Ao ponto do meu pai, quando ainda morava com eles, me chamar, em modo crítico e reprovador, “jogadora nocturna”.

 

Para mim sair à noite era sinónimo de diversão, de fofoquice, de sensualização com o boy-magia do 12º ano que víamos na escola, mas que nunca tínhamos tido coragem para ir lá dizer qualquer coisa, era sinónimo de montar modelitos para arrasar na disco e era dançar até cair e fazer feridas nos dedos dos pés, arrasando com a competição na dance floor.

 

A.M.A.V.A!

 

Era o tempo de juntar todas as amigas no bar da avenida, de sairmos para falar sobre o tudo e o nada e de DANÇAR.

 

Confesso que sempre adorei sair à noite para ouvir música e dançar. Sempre foi essa a minha motivação. Nunca me excedi no álcool, aliás, nunca fiquei embriagada (que triste vida a minha), era sempre a condutora “100% cool”, nunca fiz nada de extraordinário, para grande espanto do meu pai: “o que é que vocês tanto fazem quando saem à noite?”. Simplesmente queria dançar, divertir-me, vestir roupas diferentes do básico da escola e ficar a rir até altas horas da madrugada com as minhas amigas.

 

Ahhhhhh (suspiro prolongado)! Those were the days!

 

Comecei a sair muitoooooo cedo. Talvez até cedo demais. Mãe, não vejas esta parte, ok? Eu nunca disse isto.

 

Como a minha irmã é mais velha do que eu 6 anos, o que era cool, interessante e desafiante era o que ela já fazia, era as conversas dela com as amigas e era as saídas à noite. Como todo o irmão mais velho, a foice do desbravamento da vida foi dela. Ela ia à frente e eu, com o caminho muito mais livre, podia avacalhar mais nas pedras da calçada e ultrapassar mais rapidamente as diversas etapas sociais.

 

Saí pela primeira vez quando tinha apenas 14 anos (eram mesmo outros tempos!). Com a desculpa de ir só ao cafezinho com a minha irmã e as amigas, a coisa foi-se normalizando a institucionalizando lá em casa. Nesse verão arrisquei-me num “bar-dançante” com a minha irmã, amigas e primos mais velhos no Algarve, onde sempre passámos férias em família. Digamos que foi o princípio do fim!

Fim das noites passadas em casa e fim do sossego dos mais pais. Coitados…

 

Foram anos e anos de saídas precoces à noite, alicerçados neste discurso bacoco, mas verdadeiro, da minha mãe que sempre declarava, a cada pedido para sair, um “porque é que vais hoje também? Vais enjoar! Quando for altura de saíres já não vais querer”. Mulher-Sábia!

 

Não digo que tenha enjoado mas, claramente, a mística deixou de bater com tanto glamour, como um compasso desacelerado da balada de fim de noite.

 

Na faculdade ainda vivi momentos de pura loucura.

A partilhar casa em Lisboa com as minhas amigas o itinerário era forte e tentador. Começava às quartas com uma ida ao revivalista Plateu, seguiam-se as quintas míticas no LUX, às sextas corríamos para o Jamaica, aos sábados regressava à base setubalense para acabar a noite no Absurdo e, muitas vezes, chegava a Lisboa no domingo para ainda ir a tempo de sair para um copo no Bairro Alto com aja’amigas, porque tínhamos sempre montes de coisas novas para falar (sabe-se lá o quê!), antes de começar uma nova semana.

 

Ufa! Só de escrever isto penso “onde é que eu estava com a cabeça?” e “como é que o meu corpo aguentou?”.

 

Shame! Shame! Shame!

 

Sinto que a velhice ou, melhor, a sensatez, abateu-se sobre o meu ser quando comecei a trabalhar, logo quando acabei a faculdade. Os horários mais fixos, a pressão das novas funções e o cansaço acumulado de uma semana intensa de work, work, work, work, work fizeram com que baixasse (temporariamente, achava eu) a tiara de Queen of the Night e me entregasse de corpo e alma aos novos ofícios diurnos.

 

E tem sido assim até hoje!

 

Sinto que a minha loucura ainda está aqui dentro, presa numa cabeça que acha que ainda tem vinte anos (e tenho!), atarraxada a um corpo que já viveu demasiadas directas.

 

Como se estivesse numa espécie de crise de meia idade, sem o ser, em que em vez de querer comprar o carro descapotável, fazer uma cirurgia plástica, gastar todo o dinheiro que tenho em roupa de marca,  ou engatar um homem 20 anos mais nodo do que eu (isso seria apenas WRONG!), queria somente sobreviver com dignidade a uma simples saída à noite sem achar que a minha avó, quando vai para os bailes da colectividade acorda no dia seguinte com mais genica que eu.#ABENÇOADA

 

My mind starts to wonder

Será que esta é a nova “crise dos 30”? Respeitar o corpo e a flacidez de espírito (SÓ de espírito, tá?)? Sinto que este deve ser um dos capítulos, daqueles livros de auto-ajuda-baratos, intitulado qualquer coisa como “ACEITAÇÃO”. Será?

Não sei… mas bateu forte.

Puntz, puntz, puntz, puntz, puntz, panados com pão, panados com pão, panados com pão…

(som das batidas da discoteca)

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