BATE-PAPO

Blogar ou não blogar, eis a questão

10 Setembro, 2019

 

Será que os blogues estão a morrer?

É com a carga dramática de William Shakespeare, evocando o que de mais trágico há em Hamlet, que vos coloco esta mesma questão – será que os blogues estão mesmo a morrer?

Tan, tan, tan, taaaaaaannnnn

 

 

(Sintam o aproximar do plano e o close up nas vossas caras. Estão?)

 

Esta é uma questão que me têm colocado muito nos últimos tempos, que me tem ocupado a mente e que me surge sempre que abro o backoffice do blogue para começar a escrever.

Será que continua a valer a pena?

 

Quando criei o blogue, em 2015, o universo blogueiro estava no auge.

Foi quando as marcas e o público assumiram a atividade como legitima. Foi quando se começou a falar em fazer “disto” uma profissão séria e reconhecida. Foi quando a audiência procurou por este tipo de conteúdos e consumia cada post de um blogue como pãezinhos quentes. Foi quando as rotinas se faziam de idas diárias aos blogues, que mais conquistavam corações para, em modo curadoria pessoal, seleccionar os artigos que mais faziam sentido. Foi quando, neles, se procuravam as dicas que nos iam salvar, ficávamos a conhecer os produtos do momento e víamos os looks do dia, que mais nos inspiravam.

 

Tal como para o cinema a década de 20 foi considerada a de Ouro, também os anos de 2010 a 2016 foram os mais bombásticos para a blogosfera nacional. Era a era do Facebook, a nossa película do digital, onde os posts atingiam audiências enormes e se falava sobre o texto que a “X” tinha escrito ou o comentário que “Y” tinha feito. Outros tempos.

 

Era o surgimento quase diário de novas plataformas, de novas pessoas, de novas vozes, de novas formas de escrita, de novas parcerias com marcas, de novas formas de publicitar um produto, de novas campanhas, que nos entravam pela retina a cada clique. O que fez com que perpetuássemos uma espécie de sensação comum de “saturação” do mundo blogueiro em Portugal. Era, praticamente, impossível alguém criar um blogue novo e ter sucesso. Bom, a realidade dos números dizia-nos que não era bem assim…

 

 

E enquanto os blogues viviam a sua expressão máxima, plantados ao sol da bananeira da estabilidade, na retaguarda os mais novos, os mais “antenados” nas novas tecnologias e no que se “passava lá fora”, os que não tinham medo de se expor, de falar, em qualquer plataforma, e de aparecer, já estavam a explorar as potencialidades do Youtube. Aprenderam a editar, viram tutoriais até à morte e muniram-se de ferramentas para a guerra da imagem que se adivinhava. Construíram uma legião de fãs.

Depois, veio uma coisa chamada Instagram, que vivia de quem gostava de se mostrar (no bom sentido, claro!). Vivia das imagens, do idílico e do inspiracional. A plataforma ideal para os looks, para as fotos imaculadas de comida, para as pirraças com as viagens paradisíacas. Era uma espécie de faz-de-conta com a realidade editada, a brincar aos filtros.

O Twitter fugiu um bocadinho, de início, à adesão nacional (por questões que não carecem de ser explicadas aqui), mas onde, contrariamente ao que se passava na produção blogueira, onde a mancha de texto se queria grande e envolvente, as narrativas aconteciam em pouquíssimos caracteres, num rasgo acutilante, breve, quase como uma espada que trespassava tão rapidamente, que nem deixava rasto. Mas havia (há) sangue!

 

Viveu-se o frenetismo do Snapchat, que apresentou uma proposta inovadora, com vídeos criados em dez segundos, que apenas ficavam disponíveis 24 horas (onde é que já vimos isto?), o que deixava a audiência a suspirar por mais, a querer ver mais e a brincar com as orelhas, os focinhos, as cores, os óculos, as vozes, enquanto entretinham quem por lá passava. O Periscope também teve os seus dias, sem grande expressão, entre outras redes e plataformas.

 

 

Com os cada vez maiores e melhores smartphones, com a melhoria dos pacotes de dados móveis e com a maior democratização do acesso à Internet, o consumo da informação passou, radicalmente, a ser feito, essencialmente, em ambiente mobile, o que dificultou o consumo de textos muito longos, a passagem de plataformas para plataformas, de blogues para blogues ficou comprometida, passando-se a privilegiar tudo o que fosse mais fácil de consumir, de preferência em andamento – imagem e vídeo – com dinâmica e emoção.

 

Como já referi aqui, várias vezes, o motor de arranque que me levou a criar o blogue não teve nada que ver com a vertente comercial (legítima e aceite), nem com a possibilidade de fazer deste hobby a minha profissão a tempo inteiro. Tanto não foi, que não é! Ainda hoje, trabalhar nas redes e criar conteúdos meus é apenas um hobby (snif snif), que me dá muito gozo e uma alegria enorme no meu coração (quem é que já está com saudades dos vídeos? EU!!!!!).

 

Porém, “isto” (o que quer que “isto” signifique) dá trabalho, requer muitas horas, consome energia e coloca-nos em “dívida” para com quem está do outro lado. Não falo por mais ninguém, mas no que toca à JE aqui deste lado fico numa angústia e numa ansiedade quando sei que não estou a produzir, quando sei que não estou a entregar nada de interessante e com valor, quando sinto que podia estar a fazer muito mais. Podia? Se calhar podia, mas olhem é isto que neste momento dá para oferecer. Diz que é a vida a acontecer 🙂

 

Sabendo que para conseguirmos um maior alcance e uma melhor relação de engagement com a nossa audiência temos de apostar em qualidade de conteúdos, criatividade, frequência e consistência, pensar na miríade de redes e plataformas que existem hoje para alimentar, com copys diferentes e com intenções diferentes, é o bastante para ficarmos com um nó na barriga, sempre que pensamos em postar alguma coisa, . Blogue, Facebook, Instagram, Story do Instagram e Youtube… É MUITA COISA! (suspiro).

 

O que me leva à pergunta que iniciou esta verborreia digital.

Será que, hoje, continua a valer a pena ter um blogue?

 

Podemos sempre levar a discussão à análise de audiências, ao olhar mais crítico do analitics, para percebermos a tendência de consumo dos nossos conteúdos, e, quando o fazemos, percebemos rapidamente que a corrente vai nesse sentido – as pessoas estão a consumir menos conteúdos provenientes dos blogues. SHOCKER!

 

Porém, todavia, contudo…há esperança!

Apesar dos números já não serem os de antigamente e de existir um comprovado desinteresse por parte da audiência, o que é certo é que continua a ser importante. Porquê, perguntam vocês do alto da vossa incrível sabedoria?

 

 

Porque o blogue é somente a única plataforma que nós, produtores de conteúdo, controlamos.

Pensem comigo: tanto o Instagram, como o Facebook e o Youtube estão fora do nosso alcance. Se acontecer alguma coisa ao Zuckerberg e, de repente, ele passar-se da mona e decidir implodir com a empresa ficamos automaticamente sem as nossas contas de Face e de Insta. Caput! Já foram, já eram. O mesmo pode acontecer com o Youtube. E depois? Suicídios em massa, amigos. Todo o trabalho de uma vida pelo cano digital abaixo. #tchau.

 

No caso do blogue, ele é uma plataforma que está a nosso cargo. O seu sucesso e a sua continuação dependem, exclusivamente, de nós (com os devidos pagamento de alojamento em servidores), pelo que controlamos melhor o processo. Não há impedimentos legais sobre o que produzimos, não há censuras, o que torna este espaço um palco com uma curadoria própria e editorial.

 

Retirando as questões técnicas e autorais da equação, continuo a achar que o blogue vale a pena, simplesmente porque é mais um palco para o nosso conteúdo brilhar. E se querem que seja sincera, acho mesmo que as pessoas estão a retornar aos textos longos e às leituras mais cuidadas. É como na moda – é cíclico.

Dizem-nos os entendidos na matéria, os estudiosos da coisa, que a malta está a procurar conteúdos mais extensos, mais cuidados, que permitam a reflexão e que se posicionem face a algum tema. Pow!

 

Partindo do pressuposto de que cada plataforma digital tem o seu ADN, tem a sua linguagem, tem a sua audiência específica, então faz todo o sentido continuar, se a nossa estratégia for a diversificação de conteúdo.

 

O blogue é, pois, mais um local onde podemos colocar outro tipo de narrativas, que não cabiam nas especificidades das nossas redes sociais.

 

Agora, atenção! Para que esta produção continue a dar frutos e a ser um sucesso junto do público é necessário pensar no blogue como um canal com as suas próprias idiossincrasias paradigmáticas do ser.

Não vale cairmos no facilitísmo (já fiz! #quemnunca) de reproduzirmos a mesma mensagem nos diferentes canais, de duplicarmos ou triplicarmos conteúdo. Na, na, nim, na, não.

O segredo está aqui (e o busílis, também!).

Cada canal exige um pensamento diferenciado e uma linguagem específica.

É por isso que dá trabalho, minha gente.

Agora, vale a pena? VALE!

 

E vocês? Que acham? Como veem o mundo da blogosfera nos próximos cinco anos?

Continuam a ler blogues?

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Comments

  1. Salomé

    10 Setembro, 2019 at 19:53 Responder

    Também já me tinha questionado se os blogs estariam a morrer. Sou uma acérrima consumidora de blogs e será, talvez, de todas as plataformas, a que mais gosto e a que mais me adiciona. Mas perante esta quase morta anunciada, comecei a ver as bloggers mais influentes a deixarem de alimentar as suas plataformas com tanta frequência e atenção. Pode ser que afinal haja esperança.

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