BATE-PAPO

CASO RONALDO | E O MACHISMO SAIU À RUA…

8 Outubro, 2018

 

É o assunto do momento.

É o tema que está a abrir telejornais, que está a fazer os títulos dos periódicos e que está a ocupar as conversas de quase todos os portugueses.

Cristiano Ronaldo violou ou não violou uma americana, há 9 anos, num hotel em Las Vegas?

Não sei. Ninguém sabe.

Genuinamente, gostava que não o tivesse feito, por todos os motivos e mais alguns. Cristiano Ronaldo é um português cujos feitos nos orgulham, que nos faz encher o peito sempre que estamos além fronteiras e que elevou o nome de Portugal ao mais alto nível global.

Genuinamente, não gostava que o tivesse feito, porque a sua comprovação implica que tenha existido uma violação, implica que uma mulher tenha sofrido, há 9 anos em Las Vegas, e ninguém quer que isso tenha acontecido.

Ninguém sabe e assim permanecerá até que a justiça ou os advogados de ambas as partes cheguem a um acordo.

Por ninguém saber é que me vou imiscuir de alvitrar cenários.

 

Contudo, sem pré-conceitos ou apreciações, vamos aos factos:

 

O caso foi tornado público em 2017 quando as Football Leaks batarem na boca do mundo e ficámos a saber de coisas escabrosas, entre elas a alegada violação de Cristiano Ronaldo. Na altura, CR7 estava no Real Madrid e se por questões clubísticas se por gestão pessoal, o que é certo é que o caso foi abafado e não houve lastro do bafão.

 

Contudo, a revista de referência alemã “Der Spiegel” mordeu o osso e não largou mais. Levou a cabo uma investigação para ir mais fundo nesta história de acusação. Foi este desdobramento, em reportagem alargada do “Spiegel”, que fez com que o caso voltasse às bocas do povo, dando conta da intenção da alegada vítima de querer justiça em tribunal.

 

Nove anos depois do sucedido, a polícia de Las Vegas confirmou a reabertura da investigação da alegada violação de Cristiano Ronaldo à norte-americana Kathryn Mayorga, numa casa-de-banho de um quarto de hotel do Palm Hotel and Casino, em junho de 2009.

 

 

Segundo a revista alemã, a ex-professora de 34 anos foi nesse dia à discoteca do hotel onde esteve com Cristiano Ronaldo. Dançaram, divertiram-se e no final da noite subiram, acompanhados por mais pessoas (incluindo uma amiga de Mayorga), para a suite de Ronaldo. A aspirante a modelo conta que chegada à suite pediu para trocar de roupa para poder ir ao jacuzzi, no quarto do internacional, Ronaldo surge-lhe nu e força-a a ter sexo anal na casa-de-banho.

 

No processo, a mulher diz ter contado o alegado incidente à polícia de Las Vegas nesse mesmo dia, mas acabou por não dizer quem era o suposto agressor, omitiu no relatório o nome de Ronaldo, afirmando recear o comportamento dos fãs do futebolista português.

 

Em troca de silêncio, à Der Spiegel, Mayorga conta que recebeu 375 mil dólares (322 mil euros) do internacional português. A veracidade do documento é, segundo a revista, aferida pelas alegadas assinaturas de Kathryn e do suposto pseudónimo de Ronaldo, Topher.

Neste momento, em causa estão 11 crimes atribuídos a Cristiano Ronaldo, um acordo de confidencialidade alegadamente assinado pelas duas partes, uma tentativa de silenciamento, provas forenses, e-mails comprometedores, um reviver de caso duvidoso e um pedido de mais dinheiro, por cada crime supostamente cometido.
A dúvida permanece – o que aconteceu nessa noite de junho de 2019?
– Se ele pagou é porque tinha alguma coisa a esconder.
– Se ela aceitou o dinheiro e calou-se é porque quis apenas extorquir dinheiro ao melhor do mundo.
O caso divide as pessoas e a opinião pública.
Não sei…
O que sei, e é disso que quero falar, é que este caso provocou declarações e tomadas de posição muito preocupantes.
Se quando falamos de um caso destes várias são as pessoas e personalidades importantes da opinião pública que saltam logo para as trincheiras das redes sociais tecendo comentários e reflexões sobre desigualdades, abuso de poder e movimentos internacionais feministas. Agora, com este caso, o silêncio é ensurdecedor.
As plataformas cheias de certezas e balas rápidas na acusação, remeteram-se à reflexão e ao recato para, espantem-se, esperar “resultados” oficiais. No mínimo estranho…
Mas aquilo que mais me chocou foi o machismo declarado e perturbador vindo de vários quadrantes da sociedade. Aquelas bocas-de-mesa-de-café ganharam eco nacional e era ver caixas e caixas de comentários e posts no Facebook e Twitter com expressões como:
“Então, mas o que é que ela queria? Foi para o quarto dele à espera do quê?”
“Mas acham que ele precisa de violar?”
“Dá Deus nozes a quem não tem dentes”
“Pôs-se a jeito e agora queixa-se”
Ora bem, que dizer deste machismo enraizado de sociedade patriarcal em que vivemos?
Dizer que são este tipo de comentários, maioritariamente produzidos por mulheres (pasme-se!), que dão aso a que se ache “normal” que um tribunal do Porto não condene devidamente dois predadores sexuais que violaram uma mulher inconsciente na casa-de-banho de uma discoteca, porque houve “sedução mútua” na pista de dança horas antes da violação. Ela pôs-se a jeito, não foi? Dançou de forma sedutora, coitada. Teve o que mereceu.
São estes mesmos comentários que dão aso a que se ache “normal” que uma prostituta possa ser violada, que isso é aceitável. Claro que sim, é o trabalho dela, performar sexualmente a todo o custo e vontade, mesmo que isso implique violação, agressão e crime.
São estes comentários que validam a ideia de que não há violação dentro de um casamento “normal”. Que entre marido e mulher não há relação abusiva, que vale tudo, porque entre quatro paredes ninguém pode nem deve dizer nada.
Mais uma vez, não sei o que se passou nem ninguém saberá, mas dizer que ela dançou de forma sensual, que subiu para o quarto para ter sexo, que se vestia de forma provocadora e que teve o que mereceu é só PULHICE.
É achar que as mulheres (e homens) têm de ter uma certa conduta, comportar-se de uma determinada maneira que é aceitável pela sociedade, que não podem ter comportamentos apenas associados aos homens, que não têm LIBERDADE para ser quem desejam ser e fazer o que querem fazer na sua verdade  individual.
NADA. Repito, NADA justifica violar uma pessoa.
Ela (ou ele) pode dançar sensualmente todos os dias, ir para a discoteca engatar quem quiser, vestir os vestidos mais justos e provocadores que existem à face da terra, ir para a cama com quem bem lhe apetecer, ter sexo todos os dias a toda a hora com vários parceiros, que NADA, repito, NADA justifica que alguém abuse de outra pessoa.
Violação é violação.
Um NÃO é um NÃO.
E sempre que alguém disser NÃO e se recusar a fazer alguma coisa, a sua vontade tem de estar a cima de todos os preconceitos e crimes do mundo.
Por isso, chega de machismo!  Não à violação.
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Comments

  1. localgeek

    9 Outubro, 2018 at 4:31 Responder

    Por acaso, relendo os textos, o yo parece ter toda a razão. As penas não são exactamente equivalentes mas, se o concurso se resolver pela sanção mais grave, então a violação de uma pessoa inconsciente deve ser punida aplicando o texto sobre o abuso, 165 2° (pena até 10 anos), e não o sobre a violação, 164 2° (pena até 6 anos). No entanto, não é correcto dizer-se que não houve violação porque, ao que julgo, a conduta corresponde também ao 164 2°. Debate puramente semântico, portanto. Boas business online pharmacy

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