BATE-PAPO, LIFE & LOVE

COMPRAR OU ALUGAR CASA? | O DRAMA DE UMA GERAÇÃO

15 Fevereiro, 2019

 

“Oh Marta, na quarta-feira decides largar a bomba, depois calas-te e não dizes mais nada?”.

Minhas jóias do coração, acho que ainda estou um pouco em choque, para ser sincera.

Recolhi-me no meu canto, derramei uma lagrimita e agora já estou preparada para voltar ao social.

 

Ora bem, para início de conversa convém contextualizar o cenário:

Eu e maridão mudámo-nos para a nossa bela casa (buáaaaaaaaaaaaaaaa) no dia 1 de  junho de 2011 (buáaaaaaaaaaaaa). Tal como no nosso relacionamento (o João vai sempre negar, mas eu sei!!!), o amor pela nossa casinha foi amor à primeira vista.

Eu morava no centro de Lisboa, mais concretamente na Lapa, tinha a mania que era fina e que andava a pé para todó’lade, sem ter de pegar no bólide (ninguém usa esta expressão, pois não?) para o que quer que fosse, a não ser quando ia às compras ao supermercado.

Digamos que estas viagens continham em si mesmas monstruosos mix feelings, uma vez que o rácio benefício/desvantagem estava claramente descompensado.  Segundos depois de tirar o carro apetecia-me autoflagelar, inflingir agressivas chibatadas em pau com bicos, por ter tirado o carro de um lugar de estacionamento à porta de casa que, quem mora no centro de Lisboa, vai perceber exatamente a minha dor.

Quando conheci o meu homem, ele já tinha encerrado o capítulo “morar no centro da cidade”. Desde o momento da vida dele em que morou no Chiado, perto do Teatro da Trindade e pagou multa de estacionamento TODOS os dias da sua pequena existência como burguês-armado-aos-cuscos, que riscou para-todo-o-sempre a possibilidade de juntarmos os trapinhos num sítio badalado da capital.

Snif snif…

Para ele, que já se tinha mudado para a periferia, as exigências eram claras.

A nossa casa deveria ter:

  • Electrodomésticos;
  • Estar vazia de todos os outros móveis (porque íamos adoptar os de ambos);
  • Ter dois quartos;
  • Ter um look and feel moderno (desde o episódio “Chiado” ele já não queria nada com cara de “traça antiga”);
  • Ter uma garagem.

 

Só por estes cinco itens podem já adivinhar que ficar no centro de Lisboa era completamente impossível, a não ser que cada um de nós ganhasse 5 mil euros por mês. Claramente, não é de TODO o caso!

Postas as exigências o espectro de pesquisa começou a aumentar de diâmetro.

Se esta pesquisa tivesse um nome de código, tipo tipo “cobra do asfalto” ou “busca sem limites”, seria “From Lapa to Linda-a-Velha”.

Ele já vivia nesta área residencial e desde que o visitava (regularmente) na casa partilhada com amigos, que a ideia de não viver mesmo mesmo no centro de Lisboa começou a ganhar outra forma que não a de nariz torcido.

Comecei a ficar rendida às evidências:

  • Casas melhores
  • Construção mais recente
  • Preço muitoooo mais baixo
  • Facilidade em chegar ao trabalho

 

Diz o povo que contra factos não há argumentos e eu não consegui arranjar mais nenhum que justificasse não procurarmos casa nesta zona.

O plano estava montado e depois de vasculhar todos os sites e ofertas existentes no mercado (eu consigo ser mesmo muitoooooo chata com a pesquisa) heis que, numa bela manhã ( Dica: o segredo está em procurar casa logo pela fresquinha que é quando as agências colocam as novas casas no mercado), entrei no site da Remax, selecciono a zona pretendida e PUFAS, aparece-me a nossa maravilhosa casa, competamente destacada das demais pelas condições e pela arquitectura.

 

Partilhei o link, em modo histérico, com o homem que em poucos segundos disse “marca já visita”.

 

Poucos minutos depois, liguei para a agência e a sorte das sortes foi termos sido os primeiros da já longa fila de interessados em visitar a casa.

Há coisas e coisas e aquela casa estávamos destinada.

Fomos visitá-la à noite, num dia de semana super atribulado, e assim que botamos olho na bicha os nossos corações palitaram e quisemos ficar com a casa naquele momento, naquela hora, naquele segundo.

Seguiram-se dias de indecisão, de negociação e de muitas asneiras vociferadas acabadas em “ão”, mas o negócio deu-se. A casinha era nossa. Bem… quase nossa… na verdade não era nem nunca foi nossa. E esse é que se revelou ser o problema…

 

Passaram-se 8 anos!!!! 8 ANOS minha gente!!!! Como assim?!?

Começámos a viver esta nossa casa quando a crise chegou a Portugal. E o que parecia um valor astronómico na altura, passou a achado poucos anos depois com a melhoria da economia e da conjectura nacional e internacional.

Quando começámos a ler e a ouvir sobre a tal “bolha imobiliária” sabíamos que mais dia menos dia ela ia rebentar no nosso terraço.

Falava-se em especulação. Falava-se em negócios da china. Falava-se em negociações de contratos por valores surreais.

Estávamos em silêncio, mas ambos sabíamos que a nossa altura ia chegar.

Estávamos numa casa demasiado valorizada pelo mercado actual de arrendamento, que está pela hora da morte.

Tínhamos amigos que estavam a morar em casas de um só quarto a pagar 1200 euros por mês.

Benzia-mo-nos!

E eu dizia ao João, quase em profecia auto-concretizável: “Um dia vamos receber um telefonema. Prepara-te que um dia vamos receber um telefonema”.

Ele respondia com desdém: “Lá está ela! O corvo negro a lançar as suas profecias!”. Mas no fundo era uma defesa. Ele sabia tão bem quanto eu que o fim de vida desta casa estava próximo.

E chegou, numa segunda-feira, igual a tantas outras.

A notícia veio embrulhada em legitimidade e certeza de que o proprietário da nossa casinha tem o direito de poder rentabilizá-la da forma como acha melhor, para cumprir o seu propósito e contra este facto não há nada a apontar.

É justo. É legítimo.

O telefonema perguntava duas coisas:

  • Se estávamos interessados em comprar?
  • Até à venda da casa, actualizar a renda, aumentando substancialmente o seu valor

 

 

Depois de uma reflexão a dois, as respostas surgiram sem argumentos.

Não tínhamos capacidade nem para comprar (sabíamos os valores que as casas no nosso condomínio estavam à venda) nem para arrendar pelo valor de renda actualizada.

Tínhamos que sair.

Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

É OFICIAL-REAL. Vamos ter de sair da nossa-casinha-do-coração.

Ficam as memórias de um tempo que vamos viver para sempre sempre…

Durante esse tempo, vivemos momentos incríveis naquela casa (não estou a aguentar este pretérito).

Foi lá que construímos a nossa vida em conjunto. Que juntámos as nossas escovas de dentes (mentira, tínhamos casas-de-banho separadas!) Formámos um lar, nós os dois, primeiro com aquilo que tínhamos – os meus e os teus – e só depois os nossos, conquistados com suor, sangue e lágrimas.

Foi lá que a casámos. Onde me vesti de noiva para vivermos um dia inesquecível.

Foi lá que recebemos amigos, demos almoços e jantares, que partilhámos conversas sem fim.

Foi lá que passámos alguns momentos difíceis. Onde discutimos muito, onde nos zangámos, onde discordámos do mundo e de nós, mas onde sempre fizemos as pazes.

Foi lá que a Concha cresceu e viveu feliz.

Foi lá que demos passeios sem fim, corridas e mergulhos.

Foi lá que conhecemos vizinhos, que se tornaram amigos para a vida.

Foi lá que aprendemos que casa é onde estivermos juntos a tentarmos ser felizes.

Casa vai ser onde nos esperam.

Esperamos nós.

Quer seja ela alugada ou comprada.

 

Este é o dilema. Um dilema de uma geração, da nossa geração. Não acham?

Tem sido recorrente, possivelmente tem que ver com a conjectura actual, estarmos com grupos de amigos e a conversa surgir, porque há sempre alguém que está a passar por este drama – fui “obrigado” a sair da casa onde estava e agora enfrento o dilema comprar ou alugar.
Por um lado, o mercado de arrendamento está pela hora da morte. A especulação imobiliária rebentou com o aluguer. As pessoas com empregos “normais” (com salários dentro da média salarial do nosso país) não conseguem alugar nos grandes centros urbanos e são obrigadas a procurar na periferia, por alternativas.

Isso fez com que os valores subissem abruptamente tanto no centro, pela procura, como na periferia, pela elevada procura também.

É a lei do mercado, dizem. Mas é uma lei muito desfasada da realidade.

A realidade diz-nos, porque conhecemos dezenas de casos à nossa volta, que o mercado tem de ser regulado para que existam alternativas.

Neste momento, alugar está caríssimo, mas comprar casa também envolve um dispêndio de dinheiro em custas iniciais, impostos e comissões, um valor de capital próprio que a maioria dos casais jovens não tem disponível (pelo menos a maioria que eu conheço).

Fala-se em mercado ascendente, números de vendas nunca antes vistos, mas, sinceramente, não sei como é que se está a vender tanto com tantos entraves à compra.

Alugar tem benefícios, mas também tem desvantagens (como se viu pelo nosso caso). Ao comprarmos estamos a investir num imóvel nosso, mas também temos que suportar todas as custas envolvidas.

Não há uma decisão perfeita, foi o que concluímos deste início de viagem.

Tem tudo que ver com a fase em que se encontram nesta altura da vossa vida.

O que privilegiam e o que querem para o futuro.

Deep, hum!??!

 

E vocês? Estão a passar pelo mesmos dilema?

Que decidiram?! Comprar ou alugar?!

12

Leave a comment

About