
“Oh Marta, na quarta-feira decides largar a bomba, depois calas-te e não dizes mais nada?”.
Minhas jóias do coração, acho que ainda estou um pouco em choque, para ser sincera.
Recolhi-me no meu canto, derramei uma lagrimita e agora já estou preparada para voltar ao social.
Ora bem, para início de conversa convém contextualizar o cenário:
Eu e maridão mudámo-nos para a nossa bela casa (buáaaaaaaaaaaaaaaa) no dia 1 de junho de 2011 (buáaaaaaaaaaaaa). Tal como no nosso relacionamento (o João vai sempre negar, mas eu sei!!!), o amor pela nossa casinha foi amor à primeira vista.
Eu morava no centro de Lisboa, mais concretamente na Lapa, tinha a mania que era fina e que andava a pé para todó’lade, sem ter de pegar no bólide (ninguém usa esta expressão, pois não?) para o que quer que fosse, a não ser quando ia às compras ao supermercado.
Digamos que estas viagens continham em si mesmas monstruosos mix feelings, uma vez que o rácio benefício/desvantagem estava claramente descompensado. Segundos depois de tirar o carro apetecia-me autoflagelar, inflingir agressivas chibatadas em pau com bicos, por ter tirado o carro de um lugar de estacionamento à porta de casa que, quem mora no centro de Lisboa, vai perceber exatamente a minha dor.
Quando conheci o meu homem, ele já tinha encerrado o capítulo “morar no centro da cidade”. Desde o momento da vida dele em que morou no Chiado, perto do Teatro da Trindade e pagou multa de estacionamento TODOS os dias da sua pequena existência como burguês-armado-aos-cuscos, que riscou para-todo-o-sempre a possibilidade de juntarmos os trapinhos num sítio badalado da capital.
Snif snif…
Para ele, que já se tinha mudado para a periferia, as exigências eram claras.
A nossa casa deveria ter:
- Electrodomésticos;
- Estar vazia de todos os outros móveis (porque íamos adoptar os de ambos);
- Ter dois quartos;
- Ter um look and feel moderno (desde o episódio “Chiado” ele já não queria nada com cara de “traça antiga”);
- Ter uma garagem.
Só por estes cinco itens podem já adivinhar que ficar no centro de Lisboa era completamente impossível, a não ser que cada um de nós ganhasse 5 mil euros por mês. Claramente, não é de TODO o caso!
Postas as exigências o espectro de pesquisa começou a aumentar de diâmetro.
Se esta pesquisa tivesse um nome de código, tipo tipo “cobra do asfalto” ou “busca sem limites”, seria “From Lapa to Linda-a-Velha”.
Ele já vivia nesta área residencial e desde que o visitava (regularmente) na casa partilhada com amigos, que a ideia de não viver mesmo mesmo no centro de Lisboa começou a ganhar outra forma que não a de nariz torcido.
Comecei a ficar rendida às evidências:
- Casas melhores
- Construção mais recente
- Preço muitoooo mais baixo
- Facilidade em chegar ao trabalho
Diz o povo que contra factos não há argumentos e eu não consegui arranjar mais nenhum que justificasse não procurarmos casa nesta zona.
O plano estava montado e depois de vasculhar todos os sites e ofertas existentes no mercado (eu consigo ser mesmo muitoooooo chata com a pesquisa) heis que, numa bela manhã ( Dica: o segredo está em procurar casa logo pela fresquinha que é quando as agências colocam as novas casas no mercado), entrei no site da Remax, selecciono a zona pretendida e PUFAS, aparece-me a nossa maravilhosa casa, competamente destacada das demais pelas condições e pela arquitectura.
Partilhei o link, em modo histérico, com o homem que em poucos segundos disse “marca já visita”.
Poucos minutos depois, liguei para a agência e a sorte das sortes foi termos sido os primeiros da já longa fila de interessados em visitar a casa.
Há coisas e coisas e aquela casa estávamos destinada.
Fomos visitá-la à noite, num dia de semana super atribulado, e assim que botamos olho na bicha os nossos corações palitaram e quisemos ficar com a casa naquele momento, naquela hora, naquele segundo.
Seguiram-se dias de indecisão, de negociação e de muitas asneiras vociferadas acabadas em “ão”, mas o negócio deu-se. A casinha era nossa. Bem… quase nossa… na verdade não era nem nunca foi nossa. E esse é que se revelou ser o problema…
Passaram-se 8 anos!!!! 8 ANOS minha gente!!!! Como assim?!?
Começámos a viver esta nossa casa quando a crise chegou a Portugal. E o que parecia um valor astronómico na altura, passou a achado poucos anos depois com a melhoria da economia e da conjectura nacional e internacional.
Quando começámos a ler e a ouvir sobre a tal “bolha imobiliária” sabíamos que mais dia menos dia ela ia rebentar no nosso terraço.
Falava-se em especulação. Falava-se em negócios da china. Falava-se em negociações de contratos por valores surreais.
Estávamos em silêncio, mas ambos sabíamos que a nossa altura ia chegar.
Estávamos numa casa demasiado valorizada pelo mercado actual de arrendamento, que está pela hora da morte.
Tínhamos amigos que estavam a morar em casas de um só quarto a pagar 1200 euros por mês.
Benzia-mo-nos!
E eu dizia ao João, quase em profecia auto-concretizável: “Um dia vamos receber um telefonema. Prepara-te que um dia vamos receber um telefonema”.
Ele respondia com desdém: “Lá está ela! O corvo negro a lançar as suas profecias!”. Mas no fundo era uma defesa. Ele sabia tão bem quanto eu que o fim de vida desta casa estava próximo.
E chegou, numa segunda-feira, igual a tantas outras.
A notícia veio embrulhada em legitimidade e certeza de que o proprietário da nossa casinha tem o direito de poder rentabilizá-la da forma como acha melhor, para cumprir o seu propósito e contra este facto não há nada a apontar.
É justo. É legítimo.
O telefonema perguntava duas coisas:
- Se estávamos interessados em comprar?
- Até à venda da casa, actualizar a renda, aumentando substancialmente o seu valor

Depois de uma reflexão a dois, as respostas surgiram sem argumentos.
Não tínhamos capacidade nem para comprar (sabíamos os valores que as casas no nosso condomínio estavam à venda) nem para arrendar pelo valor de renda actualizada.
Tínhamos que sair.
Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
É OFICIAL-REAL. Vamos ter de sair da nossa-casinha-do-coração.
Ficam as memórias de um tempo que vamos viver para sempre sempre…
Durante esse tempo, vivemos momentos incríveis naquela casa (não estou a aguentar este pretérito).
Foi lá que construímos a nossa vida em conjunto. Que juntámos as nossas escovas de dentes (mentira, tínhamos casas-de-banho separadas!) Formámos um lar, nós os dois, primeiro com aquilo que tínhamos – os meus e os teus – e só depois os nossos, conquistados com suor, sangue e lágrimas.
Foi lá que a casámos. Onde me vesti de noiva para vivermos um dia inesquecível.
Foi lá que recebemos amigos, demos almoços e jantares, que partilhámos conversas sem fim.
Foi lá que passámos alguns momentos difíceis. Onde discutimos muito, onde nos zangámos, onde discordámos do mundo e de nós, mas onde sempre fizemos as pazes.
Foi lá que a Concha cresceu e viveu feliz.
Foi lá que demos passeios sem fim, corridas e mergulhos.
Foi lá que conhecemos vizinhos, que se tornaram amigos para a vida.
Foi lá que aprendemos que casa é onde estivermos juntos a tentarmos ser felizes.
Casa vai ser onde nos esperam.
Esperamos nós.
Quer seja ela alugada ou comprada.
Este é o dilema. Um dilema de uma geração, da nossa geração. Não acham?
Tem sido recorrente, possivelmente tem que ver com a conjectura actual, estarmos com grupos de amigos e a conversa surgir, porque há sempre alguém que está a passar por este drama – fui “obrigado” a sair da casa onde estava e agora enfrento o dilema comprar ou alugar.
Por um lado, o mercado de arrendamento está pela hora da morte. A especulação imobiliária rebentou com o aluguer. As pessoas com empregos “normais” (com salários dentro da média salarial do nosso país) não conseguem alugar nos grandes centros urbanos e são obrigadas a procurar na periferia, por alternativas.
Isso fez com que os valores subissem abruptamente tanto no centro, pela procura, como na periferia, pela elevada procura também.
É a lei do mercado, dizem. Mas é uma lei muito desfasada da realidade.
A realidade diz-nos, porque conhecemos dezenas de casos à nossa volta, que o mercado tem de ser regulado para que existam alternativas.
Neste momento, alugar está caríssimo, mas comprar casa também envolve um dispêndio de dinheiro em custas iniciais, impostos e comissões, um valor de capital próprio que a maioria dos casais jovens não tem disponível (pelo menos a maioria que eu conheço).
Fala-se em mercado ascendente, números de vendas nunca antes vistos, mas, sinceramente, não sei como é que se está a vender tanto com tantos entraves à compra.
Alugar tem benefícios, mas também tem desvantagens (como se viu pelo nosso caso). Ao comprarmos estamos a investir num imóvel nosso, mas também temos que suportar todas as custas envolvidas.
Não há uma decisão perfeita, foi o que concluímos deste início de viagem.
Tem tudo que ver com a fase em que se encontram nesta altura da vossa vida.
O que privilegiam e o que querem para o futuro.
Deep, hum!??!
E vocês? Estão a passar pelo mesmos dilema?
Que decidiram?! Comprar ou alugar?!




