LIFE & LOVE

“DEUS AJUDA QUEM OS OUTROS AJUDA”

19 Fevereiro, 2019

 

Ontem, eu e o João, fizemos a nossa penúltima rota da Refood.

Depois das recentes novidades (ainda não contei aqui!!!) vamos ter de deixar de fazer o nosso voluntariado às segundas-feiras à noite, no núcleo da Estrela.

Foi difícil comunicar esta decisão (imposta) à nossa Ju-do-Coração. Ela que se esforça tanto por ter sempre voluntários a todas as horas, gerir calendários, baixas, faltas, novas rotas, novas exigências, sempre com uma mensagem amiga e um emoji fofinho a pontuar cada interacção.

Como sempre, foi de sorriso rasgado e com uma palavra amiga que ouviu as novidades. Entusiasmou-se connosco e desejou-nos a maior sorte do mundo para esta nova aventura.

Demos um longo abraço e no final agradeceu a nossa dedicação ao longo destes 6 anos de ajuda comunitária.

Fogo… foi há 6 anos que assumimos esta responsabilidade!

Como assim? Passou tudo num instante. Cada segunda-feira, cada hora, cada restaurante, cada caixa com comida, cada semana, cada mês, cada ano.

Bolas!

Sei que é conversa de “belha”, mas não consigo deixar de pensar nisso – como o tempo passa rápido. E como as pessoas com quem partilhamos a nossa vida, marcam-nos sempre de alguma forma.

Possivelmente, os nossos colegas não sabiam, mas este núcleo era, também, a nossa família-alargada longe de casa.

Ir já era um ritual.

Perguntavam por nós. Preocupavam-se connosco. Queriam sempre saber se estávamos bem.

Traziam todos sempre um sorriso consigo.

Diz que é a Lei da Atracção: fazer bem aos outros, faz-nos bem também, não é assim?

 

No final da rota, a caminho de casa, vinha a pensar de que forma é que nós poderíamos continuar a contribuir. De que forma é que, na nossa nova casa (SPOILER!), conseguiríamos manter uma rotina de voluntariado e continuar a ajudar.

Deitei-me a pensar que, depois de instalados, tinha que fazer umas pesquisa e avaliar as nossas novas possibilidades.

 

Hoje, quando regressava do almoço, a caminho do trabalho, passei por uma senhora, já de idade avançada, que, de canadiana, recuperava o fôlego num dos pilaretes que divide a estrada do passeio. Pousado no chão, ao seu lado, tinha um saco de supermercado aparentemente cheio e volumoso que repousava com ela junto às pedras da calçada.

Tirei os phones dos ouvidos e perguntei-lhe, com uma voz calma para não se assustar, se não precisava de ajuda a carregar as compras até casa.

Acho que nem consegui acabar a frase. Os olhinhos dela sorriram e a cabeça acenou de alívio.

Pusemo-nos à estrada.

Disse-me que morava já ali numa travessa do outro lado da estrada. Coxeava com um braço apoiado na canadiana e o outro entrelaçado no meu, para não dar nenhum tombo na pedra irregular.

“Minha Senhora, o que leva aqui dentro que está tão pesado? Não pode andar assim com sacos tão carregados! Não tem quem a ajude?

Contou-me que não.

 

Vive completamente sozinha na casa antiga que já era da sua mãe.

Mãe, essa, que ficou doente muito nova, que fez com que precisasse da ajuda de uma prima para cuidar e que depois acabou por ajudar até à sua morte também.

Hoje, com 89 anos, a antiga modista sai cirurgicamente de casa para “comprar fruta, legumes e às vezes peixe, que cozo para não pesar no estômago”.

“Mas como é que consegue fazer este caminho todo sozinha?”

“Se Deus me deu esta coragem para sair de casa, tenho que a aproveitar”.

 

Estas palavras aqueceram-me o coração.

Dei-lhe os parabéns por ter essa audácia. Por não se permitir ficar em casa, consumida pela solidão. Que, por muito que lhe custasse, era sempre bom sair de casa, ver outras caras, apanhar sol no corpo – “é bom, não é?” – e distrair-se, nem que fosse por um bocadinho.

Disse-lhe, ainda, que já que conseguia sair e tinha saúde para enfrentar o perigo das ruas que devia ter cuidado para não se magoar e pedir ajuda, porque há sempre alguém disposto a dar uma mãozinha.

Em todas as subidas pensava como é que aquele corpo pequenino e frágil conseguia carregar consigo e com um saco cheio de comida para a semana. Como?

Mas ela lá ia. A coxear e a falar, sem perder o fôlego. Com muita vida na voz, aquela que ainda lhe resta.

É incrível.

Confesso-vos que não é a primeira vez que faço isto…

Não estou a partilhar esta história para contabilizar solidariedade ou enaltecer o ego. Digo-o porque há realmente uma necessidade muito grande em dar respostas e ajudas a uma comunidade, especialmente no interior e em bairros históricos das grandes cidades, muito envelhecida, sem grande mobilidade e completamente sozinha.

Percorremos ruas e ruelas, em obras e com o chão escavacado, típicas de um bairro lisboeta. Em cada recanto, casas com janelas abertas e outras fechadas, que encerram outras vidas e histórias iguais às que a canadiana carrega.

E quem ajuda?

E quem alimenta?

E quem vai comprar os medicamentos?

E quem já não consegue sair de casa?

E quem já nem se consegue levantar?

Como faz? Quem lhe faz o que já não se consegue fazer?

 

“Agora, aqui na rua já é só estrangeirada. Os outros (vizinhos) já morreram todos. Só fiquei eu”.

Caminhámos uns passos em silêncio.

 

Finda a última subida, chegámos à sua porta.

A casa r/c estava enfeitada de roupa interior acabada de lavar. Cheirava àquele sabonete que só as nossas avós sabem a marca.

Como é que ela conseguiu pendurar esta roupa toda?  

 

“Menina, a roupa branca gosto lavar à mão para não ficar com os punhos e colarinhos encardidos. Foi a minha mãe que me ensinou. Mas agora já me canso muito a lavar estas coisitas. Mas eu não fui feita para ficar sentada. O que é que uma pessoa há-de fazer?”.

Suspirou, a pensar na pergunta que não tem nem nunca teve resposta.

 

Despedi-me com um sorriso.

Disse-lhe para ter muito cuidado da próxima vez que saísse à rua. Para olhar sempre para o chão para ver onde punha os pés e a canadiana. Lembrei-lhe que pedisse ajuda com as compras e que falasse com um vizinho, nem que fosse da rua a baixo, para a acudir.

Desejei-lhe muita saúde e força para ser sempre assim – CORAJOSA.

Ela tapou a cara com as mãos, em sinal de vergonha e agradecimento, despediu-se com uma benção: “Deus ajuda quem os outros ajuda”.

E não há nada em que acredite mais.

 

Afinal, o sentido de ajuda não está num local específico. Se calhar, está mesmo dentro de nós.

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Comments

  1. Rita

    19 Fevereiro, 2019 at 21:21 Responder

    Marta , acredito muito nisso . Fui escuteira a minha vida toda e ajudar os outros smepre fez parte da minha rotina . Por algumas razões , há dois anos saí dos escuteiros e desde então tenho vindo a sentir que me falta Algo . Ando há algum tempo a pensar em inscrever me em algum tipo de voluntário porque sinto mesmo falta . Este post só me deu ainda mais saudades.

    Deus ajuda quem ajuda . E se não ajudar , é sempre bom sentirmos que somos úteis para alguém .

    Muito boa sorte na nova etapa . ❤️

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