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Do Salto para o Trapézio – O Novo Circo não é para Meninas | Cool in Town

10 Dezembro, 2014

(Escrevo-vos no rescaldo do que se passou… Esta crónica foi a que mais me custou escrever, não porque o seu conteúdo seja de introspecção dilacerante, mas simplesmente não consigo levantar os braços a mais de 1 centímetro da mesa. E só por vocês, meus queridíssimos leitores, é que eu estou a fazer este esforço hercúleo, no limbo entre o choro e a exaustão. Já vos agucei a curiosidade?)

Esta foi a inspiração:
Natal é… família, comida, luzes, presentes, cores, amor e… CIRCO!!!

Quem não se lembra de ir ao Circo no Natal? Um clássico! Todos os anos lá íamos nós, eu, a minha irmã e os nossos amigos, ao circo. Lembro-me, como se fosse hoje, do momento em que ganhei a única coisa que alguma vez me calhou na rifa. Estava sentada no circo e chamaram o meu nome. Tinha sido a feliz contemplada do grande prémio de natal. What?!?!?!? Êxtase total! Parecia a montra do Preço Certo, mas em brinquedos, e o Fernando Mendes era um palhaço. Sim, isto aconteceu. Fiquei tão feliz, mas tão feliz que nunca mais me esqueci desta ida ao Circo.

Mas foi só por isto, porque na verdade não sou assim grande fã do circo tradicional. A ideia dos animais na arena a fazerem acrobacias, dá-me arrepios na espinha. E os palhaços… pppffff… é que não os consiga encarar… e não tenho a mesma fobia que aquele rapaz da Casa dos Segredos (Clourofobia), mas aquelas expressões faciais, a máscara, as vestes… ui… Isso e bonecas de porcelana. É que nem vê-los (com o total respeito pelos senhores palhaços).

Foi quando vi o Cirque du Soleil, pela primeira vez na televisão e depois ao vivo, que o meu conceito mudou radicalmente. Para mim aquilo é que é circo – o Novo Circo. Fiquei completamente fascinada por tudo. O espectáculo é lindíssimo, com um cuidado cénico e coreográfico inigualável, que nos deixa a sonhar com o seu imaginário e com a mestria dos seus artistas.

Não sei se é da minha raça de criança-mogli ou da minha paixão pela performance e dança, mas as artes circenses sempre estiveram na minha bucketlist. Foi por isso, que quando pensei em fazer alguma coisa para a crónica relacionada com o Natal esta ideia veio-me logo à cabeça – descer do salto e subir para o trapézio – uma saltimbanca no Natal nunca pode correr mal, certo? Mas onde?! Como?!

Joguei no Google e perguntei: Onde fazer artes circenses em Lisboa? (sim, eu trato o Google como se fosse o meu oráculo pessoal). A primeira inserção referia-se ao “Armazém 13”, em Benfica.Da minha breve pesquisa percebi que o Armazém 13 é um projecto cultural recente, dedicado às artes circenses perfomativas e ao circo contemporâneo (check!) que agrega os maiores artistas de circo da atualidade em Portugal. Uau! Parece-me que acertei. Decidi marcar uma aula e lá fui, sem saber muito bem o que me esperava. Vesti roupa confortável, como me tinham aconselhado, e prendi o cabelo à lá ginasta-russa-dos-olímpicos, achei que me ia ajudar a compor a personagem (uma pessoa tem que se agarrar a estas minudências visuais, certo?).

O Armazém 13 fica mesmo ao lado da Junta de Freguesia de Benfica, num complexo de armazéns (como o próprio nome indica). À minha espera, à porta, estava a Angélica Evrard, a guru-circense, a minha anfitriã nesta viagem. Trocámos apenas umas breves palavras, porque rapidamente ela mandou-me descalçar, tirar o casaco, que o aquecimento ia começar. E se começou…

Iniciámos com uma corrida pelo espaço, que está cheio com colchões, cordas, fitas, todo um imaginário de “bastidores de circo”, com aquele cheiro próprio do material de ginástica. Depois realizámos uma série de exercícios de preparação do corpo, ao som assertivo da nossa militar Angélica: alongamentos, força, trabalho de “core”aka abdominais e equilíbrio. Havia uns bem difíceis que me lembraram os meus idos tempos na competição do tumbling do Vitórrrria Futebol Clube (Setúbaaaaaaaal). Há quanto tempo não fazia chamada para pino ou rebolava num colchão?! Ppppffff… que “trip to memory lane”.

Depois de já estarmos MORTOS do AQUECIMENTO eis que surge o momento de atacarmos os aparelhos. À nossa disposição tínhamos um trapézio fixo, dois tecidos verticais e uma espécie de baloiço em tecido, que não fixei o nome científico. My mind starts to wonder e já me imaginava a fazer aquelas bonitas posições no tecido e a subir para o trapézio, deslumbrando tudo e todos.

À confiança, descalcei-me e subi para o colchão que dava para um dos tecidos. Perguntei as indicações básicas para poder subir, e cheia de bazófia tentei performar. Só vos digo que nem consegui fazer o segundo passo de subida no tecido. Não conseguia! Zerooooo! O meu corpo parecia que pesava toneladas. Os meus braços eram esparguete e senti-me um elefante a tentar ser gracioso. Todo um imaginário morreu naquele momento.

A Angélica lá me incentivou, disse que o tecido era o mais difícil de todos os aparelhos e que deveria começar pelo baloiço de tecido. Sem desanimar, lá fui para o baloiço na esperança de me safar em algo. E este já correu melhor. Consegui fazer “algumas coisas” decentes, mas é tudo muitoooo difícil de fazer, à primeira vez, especialmente para uma pessoa que tem ZERO de força de braços, que treina com cotonetes no ginásio para não ficar com bracinhos de Madona. Estão a ver o filme, right?!

Para completar o meu ramalhete de vergonha, só me faltava o trapézio. Logo esse que era o meu grande sonho. No meu imaginário de circo sempre achei que seria a estrela trapezista, mas a avaliar pelos outros, estava longe de ser a sua mera assistente. A Mila Xavier, que estava de serviço ao trapézio, lá percebeu o meu entusiasmo (e falta de jeito) e deu-me todas as coordenadas para conseguir fazer o “básico” no trapézio. Põe as mãos aqui, faz força ali, coloca o teu corpo assim, “não te preocupes que eu estou aqui para te segurar”, garantiu-me a Mila. Coreografei os movimentos na minha cabeça, inspirei fundo, arranjei forças nos membros e… PUMBAS! Primeira posição feita! Yeah! (dança da vitória!) Afinal ainda há esperança nesta miúda.

Recuperei a motivação e só me apetecia fazer mais e mais formas no trapézio. Já me tinha esquecido de como é viciante estar de cabeça para baixo, sentir o sangue a subir à cabeça, de como o simples baloiçar nos remete para tempos felizes da infância, de como o medo do desconhecido nos desafia e dá adrenalina. Fiquei rendida. Lá piéce de lá resistence foi mesmo quando consegui subir, num só movimento, para o trapézio, sentar-me e baloiçar lá em cima. É demais! Trapézio ROCKS!

No final da aula a Angélica, que dá aulas no Chapitô e que pratica esta arte há anos, explicou-me que este género circense caracteriza-se por dar voz a várias linguagens, cruzando as artes circenses tradicionais com o teatro, a dança e a música, criando verdadeiros espectáculos visuais. Numa tentativa de cativar um público mais abrangente, o novo circo posiciona-se como um defensor da arte de todos entreter. Neste momento o Armazém 13 está a tentar mudar as suas instalações para uma zona mais central de Lisboa. “Queremos estar mais próximos de todos”, refere Angélica com a esperança de uma mudança para breve.

Enquanto o trapézio não se centraliza, as aulas estão abertas a todos, podem experimentar estar de cabeça para baixo às segundas e quartas, das 19h30 às 21h. Quem quer uma alternativa diferente, cool, eficaz e mega atlética ao ginásio tradicional aliste-se nesta tenda, que o trabalho de corpo realizado é de Victoria Secrets para cima, vão por mim!

Eu sai de lá de coração cheio, com um sonho concretizado, com a vontade de regressar e com a certeza de que o Circo não é para meninas, especialmente para aquelas que saem sem alongar. Autch… Estou que nem posso. Dói-me T.U.D.O! As minhas figuras e tentativas falhadas podem ser comprovadas (e gozadas) no vídeo em baixo. Vá, vá, gozem lá.

Deixo a dica natalícia: se estão à procura de um programinha diferente, não percam o Circo de Natal do Armazém 13, domingo 14 de Dezembro, às 17 horas, um espectáculo para toda a família. Ho, ho, ho!

Armazém 13

Av. Gomes Pereira 11, Benfica (ao lado da Junta de Freguesia de Benfica)

Telefone: 96 67 60 247 | 91 70 70 021

Email: armazem13adn@gmail.com

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