BATE-PAPO

E “FEMINISMO” É TAMBÉM INSULTAR MULHERES NAS REDES SOCIAIS?

12 Setembro, 2019

 

Ontem, quando acordei passei, como sempre, revista pelas redes sociais (péssimo hábito, eu sei!) e quando cheguei ao Twitter fui confrontada com um “trending topic“, uma onda de criticas a uma suposta publicação de Mafalda Sampaio, criadora de conteúdos, youtuber e autora da revista “Maria Vaidosa“, onde dava conta da sua má concepção sobre o conceito de feminismo e da perpetuação de estereótipos que protagonizou durante muitos anos, face à pouca literacia que detinha sobre o assunto.

Dada a natureza dos comentários, maioritariamente negativos e acusatórios, e o tema em questão, decidi procurar por mais informações e perceber, afinal, o que é que se tinha passado.

Como já “cheguei tarde para a festa”, não vos consigo montar todo o episódio, mas alegadamente a Mafalda respondeu a algumas questões da sua audiência no Insta Stories, fez o chamado “Q&A” e uma delas referia-se a este tema do feminismo. Não consegui encontrar a pergunta em concreto, mas pelos comentários depreendo que tenha sido qualquer coisa como “consideras-te feminista?“.

E, do que percebi, a Mafalda respondeu que achava que não, porque tinha uma concepção estereotipada (como muitaaaaas pessoas) do conceito, mas que depois de ter pesquisado melhor sobre o assunto percebeu que sim, que afinal era feminista.

O que se seguiu, depois desta partilha, foi um chorrilho de comentários negativos, acusatórios e uma enchente de gente a dizer mal e a ofender.

A Mafalda, face ao resultado da sua resposta, retratou-se nos stories do instagram, seguindo esta lógica (coloco aqui na íntegra para ser fiel ao seu discurso e citar correctamente):

 

 

O que dizer sobre este episódio, que infelizmente é apenas mais um dos tantos que se passam diariamente nas redes sociais…

O comportamento das pessoas anda muito estranho, para não dizer “doente”.

Que mal há em toda esta sequência de acontecimentos?

Retirando a protagonista do seu contexto, temos uma mulher que manifestou a SUA opinião sobre um assunto que, por acaso, é o feminismo; que partilhou o que achava, assumiu que não detinha a melhor informação sobre o tema e decidiu aprender mais sobre o movimento.

Depois dessa aprendizagem, MUDOU a sua opinião e, hoje, sabe – mais informada e consciente – que afinal é feminista e defende os mesmos ideais . Ponto.

Porque é que este assunto deu tanto sururu!?

É fácil! Temos dois ingredientes, que cozinhados dão sempre explosão: cara conhecida / influencer + “o fantasma do feminismo”.

Quando alguém que é conhecido do grande público emite uma opinião, que vai em contra-corrente ao “supostamente” estabelecido, existem sempre os arautos da indignação, os sabedores de tudo, os que sempre dominam todos os temas, os que são imaculados, perfeitos, que estão ali à espreita, em turnos de 8h cada, para saber e monitorizar quando é que alguém, aparentemente, mete o pé na poça (sendo que o conceito de “meter o pé na poça” é tãoooo subjectivo).

Será que têm um alarme personalizado com notificações de publicações aparentemente duvidosas? Será que têm um grupo no whatsaap chamado “indignações várias”, onde todos comentam sobre tudo o que se passa no mundo e no universo e avaliam quem é que atira a primeira pedra? Não sei. Mas que los ai, los ai! (introduzir emoji pensador com a mão no queixo).

E depois vem a problemática do tema – o feminismo. Ui, ui, ui! Um tema “aquid’el-rei“. Quem ousa evocar este assunto sem ser com a sobriedade devida, com a solenidade necessária, com um tom de voz grave e as certezas ideológicas inabaláveis? Quem?

Ninguém, aparentemente, porque quem o faz em sentido contrário é apedrejado digitalmente.

CALMA, maltinha!

Respirem fundo…

A Mafalda assumiu publicamente (é preciso ter coragem) que não detinha informação necessária para um bom posicionamento nesta questão. Informou-se e mudou de opinião. Excelente! Deveria estar a ser congratulada por isso e não insultada. Juro que não percebo mesmo que vai na cabeça das pessoas.

O que é certo é que custa ver isto. De mulher para mulher, de cidadão para cidadão, que partilha os mesmos espaços digitais. Não se pode perpetuar este tipo de comportamentos.

E digo-vos mais (vou ser polémica)! A maior parte dos insultos de que foi alvo, recaem sobre os pressupostos do feminismo. Digam-me o que disserem, mas só porque a Mafalda é uma mulher bem sucedida, influenciadora (que é sempre aquela actividade que colhe muitas indignações e invejas) e que joga no campo mediático é um alvo para os impropérios típicos – “estas influencers não têm nada na cabeça”, “estas mulheres são umas burras”, etc.

FUCK YOU!

E, acima de tudo, custa saber que, hoje, não se pode dar opiniões sobre nada.

Não se pode mostrar dúvida. Não se pode ser vulnerável e partilhar que se errou, que não se sabia mais ou melhor, que não se dominava o tema.

ONDE ESTÁ A EMPATIA?!

Aquilo que eu gosto (e estou, claramente, a ser irónica) é que as mesmas pessoas que se manifestaram contra a criadora, foram as mesmas pessoas que não se coibiram de criticar em hasta pública e de denegrir a sua imagem.

Então, feminismo também é insultar mulheres nas redes sociais (digo mulheres como poderia dizer homens, aqui é que foi uma mulher)?

Onde estão agora os puristas? Os cumpridores? Os informados?

Hum!?

A questão para mim é só esta: a diferença entre comentário e insulto.

Não concordaste com o que a Mafalda disse?

Boa! Manda-lhe uma mensagem privada a explicar, com argumentos válidos, o que achaste sobre o seu posicionamento. Ajuda-a a compreender melhor o teu ponto de vista. Se não tiveres um feedback positivo e já não te identificares com aquela pessoa, então deixa de a seguir.

Agora, vir para as redes destilar ódio é só insulto. E com isso não posso concordar.

Não me venham com a história da liberdade de expressão e do livre comentário, porque o decoro e o respeito pelo outro também se inserem no conceito de liberdade e essa tem de ser respeitada. A linha traça-se entre aquilo que eras capaz de dizer na cara de uma pessoa e aquilo que só consegues perpetrar porque estás atrás de um ecrã.

Podem exercer a vossa opinião mais construtiva desta forma: privada (se sentirem que podem efectivamente adicionar valor à discussão).

Posto isto, espero que a Mafalda continue a dar a sua opinião sempre e quando quiser.

Que não tenha medo de se posicionar e de mostrar a sua essência.

E isto é para todos nós!

Por mais empatia e por menos ódio.

Porque isso, também, é feminismo.

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