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BATE-PAPO

PEIDOGATE | O CASO MAL-CHEIROSO DE SALVADOR SOBRAL

29 Junho, 2017

 

Tan, tan, tan, taaaaaaaaaaaannnnnnn

(som de terror!)

 

Estava aqui para com os meus botões a pensar se deveria escrever ou não algo sobre a grande polémica do momento… hum… bem sei que o bafão foi na terça, que a Internet foi abaixo com comentários, defesas, insultos e impropérios na quarta, mas com o meu delay da idade (que uma pessoa não vai para nova) só me apeteceu teclar sobre o tema hoje, quinta-feira.

 

Ora bem por onde começar… hum… Estou a brincar! É bastante fácil a análise!

 

Para as duas pessoas em Portugal que não sabem do que estou a falar, e que não foram inundadas no seu feed do Facebook com comentários ao caso ou com hastags simpáticas como #peidamospelosdois #cheirasmalsalvador #peidonomeuarena eu passo a explicar.

 

Na terça-feira aconteceu o concerto solidário, “Juntos Por Todos”, no MEO Arena a favor das vítimas de Pedrogão e em homenagem a todos os que perderam a vida nos incêndios que assolaram recentemente o centro do nosso país. A produtora Sons Em Trânsito encarregou-se de organizar o evento, num espectáculo único em Portugal, quer pela dimensão quer pelo envolvimento simultâneo de todas as estações televisivas e emissoras radiofónicas.

 

AGIR, Amor Electro, Ana Moura, Aurea, Camané, Carlos do Carmo, Carminho, D.A.M.A, David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Hélder Moutinho, João Gil, Jorge Palma, Luísa Sobral, Luís Represas, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso, Salvador Sobral e Sérgio Godinho foram os nomes seleccionados para fazerem parte deste elenco de luxo que subiu ao palco do MEO Areno a partir das 21h.

 

Todas as receitas obtidas com a venda de bilhetes, cujos preços iam dos 15 aos 25 euros, foram entregues às vítimas do incêndio que devastou a região de Pedrógão Grande, há uma semana.

E conseguiu-se angariar a histórica quantia 1.153.000 euros para a União de Misericórdias Portuguesas! I.N.C.R.Í.V.E.L!

 

Eu vi toda a emissão. Aliás, já quando ia a caminho de casa, vinda do trabalho, liguei a rádio e estive sempre a acompanhar todos os directos, entrevistas e novidades que iam partilhando directamente do MEO Arena. Não consegui tirar os olhos e os ouvidos do televisor. Tantos, mas tantos momentos marcantes, mensagens poderosas, manifestações de solidariedade, dádivas pessoais e homenagens que era impossível não nos comovermos com a força da união, o talento dos artistas, o voluntarismo de todos envolvidos e com o poder da música. Foi muito especial.

 

Para o alinhamento das actuações ficou definido que os artistas seriam emparelhados por ordem alfabética. Até aqui tudo bem! Calhando, uma vez que Sérgio Godinho fez dupla com Jorge Palma, sobrou a última vaga do concerto e o momento de fecho em apoteose a… SALVADOR SOBRAL. A última letra deste alfabeto de estrelas. A última carta deste baralho.

 

Escusado será dizer que com um MEO Arena esgotado e com todas as casas deste país sintonizadas no mesmo palco, todas as atenções se voltaram para o grande momento em que o Namoradinho-de-Portugal subiu a palco para interpretar a canção portuguesa de 2017 “Amar Pelos Dois”.

 

Quando Salvador Sobral pisou palco a casa veio a baixo. Aplausos e mais aplausos, literalmente, o delírio nas bancadas.

 

Vai daí o Enfant terrible da Nova Geração senta-se ao piano e começa a tocar…. uma melodia que não era a “Amar Pelos Dois”. Apesar do espanto da audiência, ficou tudo suspenso em curiosidade. Até aqui tudo certo, porque a interpretação que ele fez de “A Case of You”, um clássico de Joni Mitchel, foi, simplesmente, brilhante.

 

Depois a melodia avançou e começamos a perceber que vem aí a “Amar Pelos Dois”, o público começou a entusiasmar-se, ele começou a cantar e, escusado será dizer, que TODO o MEO Arena cantou em uníssono a música que todos eternizámos.

 

A meio da canção ele começou a improvisar com um solo de trompete com a sua boca (acho que é bem comum ele interpretar temas assim nos seus concertos) e perante o gáudio da audiência que se comovia e aplaudia o artista ele sai-se com esta frase:

 

“Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece”, disse antes de continuar a cantar o tema vencedor da Eurovisão.

 

Sabem aquele som de scratch no vinil?! Foi o que senti!

 

“Oi?!”. Interroguei-me. “Ai, ele disse mesmo isto?”. E no meio do espanto e da estupefacção continuei a ver a interpretação, meio adormecida por toda a emoção, mas sem saber muito bem o que pensar sobre o que tinha acabado de acontecer.

 

Quando acabou o concerto não fui mais às redes sociais, mas sabia perfeitamente que a minha “estranheza” seria apenas o mal menor de toda a repercussão desta brincadeira. Tinha a certeza de que no dia seguinte iam rolar cabeças.

 

Bem dito e bem certo!

 

Como qualquer caso polémico (especialmente os que encontram arena no Facebook e Twitter desta vida) encontramos sempre os que gostaram e os que não gostaram, os que concordam e os que defendem e os que odeiam e os que crucificam.

 

Mas quando falamos sobre uma das personagens mediáticas que mais tem antagonizado pessoas nas redes sociais – Salvador Sobral (é bom cantor/não é bom cantor; é bom artista / não é bom artista; devia ter ganho / não devia ter ganho; era uma canção vencedora / não era uma canção vencedora; sabe-se comportar / não se sabe comportar; gosta da fama / não gosta da fama; etc.) – o caso “Peidogate” ia tomar, certamente, contornos bem coloridos.

 

Ora bem (estalo de língua), mas o que é que eu penso realmente sobre tudo isto (como se isso vos interessasse minimamente…)?!

 

Excelentíssimos, do alto da minha perícia e análise socio-psicológica de confúcio de Linda-a-Velha, digo-vos que este caso se decompõe em dois temas fundamentais – Expectativas VS Maturidade/ Bom senso

 

  1. Que diz respeito à audiência, creio que o que nos falta, quando analisamos alguma coisa relativa a Salvador Sobrar,  é uma simples adequação de expectativas. Incorremos no erro crasso de querermos que uma pessoa seja aquilo que ela não é. Direi que é uma característica transversal a muitos temas e personagens da nossa vida, mas aqui aplica-se perfeitamente. Salvador Sobral encerra em si duas características antagónicas que podem causar disrupção na apreciação e, por conseguinte, na avaliação. Ele tem um ar muito angélico, uma voz suave, canta como um anjo e a música que a todos enamorou fala de Amor. A sua figura apaixonou meio mundo e Portugal inteiro adoptou-o como o Namoradinho-de-Portugal e o genro que todas as mães queriam para as suas filhas. Contudo, todavia, portanto esse foi um rótulo construído para lá da persona, foi a figura que construímos dele, não é, porém, a realidade. A realidade real é que ele é, e sempre foi (demonstrado em várias aparições públicas, conferências de imprensa, e entrevistas dadas) um artista que defende ideias muito próprias, muito fora da norma, que não é politicamente correcto, que foge ao comercial, que não gosta da popularidade, que não lida bem com a exposição mediática, que não gosta do circuito mais comercial do business e que se posiciona à margem do mainstream. Porém, com toda a sua frontalidade e transparência nos actos e palavras, sempre quisemos que ele “mudasse”, como quando estamos numa relação e passamos a vida a ter discussões com o nosso parceiro porque achamos que ele vai mudar e deixar de atirar roupa interior para o chão da casa-de-banho. WRONG (som de buzzer)! Ele é assim e vamos ter que parar de fantasiar com uma coisa que ele não é. Porém, não o estou a desculpabilizar do acto mal-cheiroso.
  2. É aqui que entra a outra parte da equação – a maturidade e o bom senso. As duas fundamentais quando temos que nos dar a algo maior do que nós ou simplesmente cumprir com regras impostas ou protocolos definidos. Admito que se o Salvador quisesse dizer as maiores barbaridades nos seus concertos isso lhe deveria ser permitido e nem sequer questionado. Não me ofende em nada a palavra “peido” e não acho de mau tom fazer piadas com assuntos mais escatológicos. Quem nunca? Contudo, o buzilis da questão é que ele não estava num concerto seu, ele estava a partilhar palco com mais 24 artistas tão merecedores de estar ali quanto ele e com um objectivo muito específico – doar a sua arte para conseguir angariar o máximo de dinheiro para as vitimas de uma catástrofe gigante. E é neste “dar” com um propósito maior que temos que sair de nós mesmos. A esse acto chama-se maturidade (que também pode ter uma pitada de humildade).ma·tu·ri·da·de
    substantivo feminino
    1. Madureza.
    2. [Figurado] Idade madura.in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. 

    Esta idade madura de espírito e de acto é aquilo que nos faz travar quando em situação inoportuna não podemos fazer aquilo que nos dá na real gana. Azar! Ce la vie. É colocar o interesse maior acima dos nossos próprios interesses ou motivações pessoais. É por isso que não posso concordar com a frase de Salvador Sobral. Porque ela em si retira peso ao que se viveu. Hoje, quando falamos sobre o concerto não falamos sobre o dinheiro angariado, falamos sobre a polémica. E isso, sinto que, não pode acontecer. Desvirtuar o propósito em nome próprio, especialmente quando tens protocolarmente no mesmo espaço as duas figuras maiores do estado português – Marcelo Rebelo de Sousa e Eduardo Ferro Rodrigues – não dá! Lamento! Mais! Acho que não foi justo para com as pessoas que ali estavam enternecidas, comovidas, sensibilizadas, para o ouvir cantar e que esperaram todas aquelas horas por aquele momento. Se por um lado percebo o que diz quando afirma que para ele é inconcebível todo o carinho e admiração do público que aplaude tudo o que faz (possivelmente até muitas vezes excessivo, questionando-o sobre as suas capacidades e talento!), não pode insultar as pessoas no que as move mais que é a admiração e o amor pela sua arte. Tem apenas que respeitar. Pode dizê-lo pelas mesmas palavras, mas não ali, não naquele momento, não naquela hora.

 

Em conclusão, senti que Salvador “brochou” na hora “H”. Não soube lidar com o climax de um final que tinha tudo para ser apoteótico e aproveitar aquilo que a sorte até lhe tinha dado – encerrar um concerto único e histórico.

 

Se acho que ele vai deixar de ser um excelente cantor por isto? Não! Se vou deixar de o considerar como uma promessa da musica em Portugal? Não! Se sinto que tem que se refrear em relação às suas considerações pessoais? Sim! Como todos nós que precisamos sempre de melhorar uma coisa ou outra nas nossas vidas profissionais (inclusive ele já se retratou nas suas redes sociais, admitindo que “sempre falei duas vezes antes de pensar. Esta minha característica tem a sua parte boa e também a parte má.
Ontem, infelizmente, reconheço que fui bastante inoportuno”).

 

Podíamos dizer que foi um comic relief do autor, um momento de descompressão do ambiente pesado que se vivia, mas para mim foi um anti-climax gigante e uma desconsideração para o que cada pessoa estava a sentir naquele momento tão intimo e pessoal.

 

Não é apenas saber cantar, dizer umas coisas mais fracturantes, ou ter piada, temos que respeitar o a solenidade e o coração da audiência. E isso não tem nada de menor, de comercial ou de mainstream.

 

Show must go ON!

7

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