BATE-PAPO

Se o dia de ontem não foi o pior do ano, então…

9 Agosto, 2019

 

Se acham que o vosso dia está a ser merdoso, que as férias nunca mais chegam (está a parecer uma eternidade) e só querem que as horas passem rápido para se estatelarem no sofá e morrer para a vida, preparem-se, porque as minhas últimas 24h são o antídoto para qualquer estado depressivo e “Ah, se calhar não estou assim tão mal…”.

 

Não estão! Na verdade, não estamos.

 

Posto isto, deixem-me dar-vos um pouco de contexto:

  • Tenho andado muito desaparecida em combate. Eu sei! (chibatadas nos costados). Para quem tem estado mais atento percebeu que houve, aqui, uma mudança radical de poiso laboral (já para não falar na de residência). Novas funções, novos desafios, muita adaptação e um ritmo completamente avassalador atiraram-me, completamente, para o buraco negro do cansaço e da gestão meticulosa das energias;

 

  • Agora, com os shakras alinhados, já um pouco mais habituada ao novo ritmo, começo a sentir-me a voltar ao meu “self”. Aleluia!;

 

  • Prometo que vos falarei sobre tudo o que está a acontecer, até porque parte da mudança vem embrulhada em tantos temas e dissertações maiores, que vão ter de ficar para outras núpcias (tenho de fazer render o conteúdo, migs!);

 

  • Existiram, também, muitos acontecimentos familiares não muito positivos, que me fizeram resguardar um bocadinho e ficar mais com os meus, no ninho, no chamego da família e a saborear cada momento juntos;

 

  • Para adensar, ainda mais, este tema familiar, o dia de ontem começou com o meu pai a ir para o hospital com dores abdominais.

 

  • Poupo-vos os pormenores de todo o processo. Passando umas horas à frente, chegamos à 01h da manhã, que foi quando ficámos a saber que, afinal, o meu pai tinha de ser operado de URGÊNCIA!;

 

  • Primeiro momento “o universo não está a colaborar”: a médica, que estava a acompanhar o caso, informou-nos de que não havia hipótese daquela cirurgia ser realizada no Hospital em causa, pelo que teríamos de a) esperar pela manhã para ver se já conseguíamos (fora de questão prolongar aquele sofrimento!) b) avançar para a procura de um outro hospital com essa valência na madrugada;

 

  • Avançámos para a segunda opção, achando que os nossos problemas estavam resolvidos. #SÓQUENÃO!;

 

  • Quando a médica conseguiu a vaga em Lisboa, para operarem o meu pai na madrugada de ontem, brindou-nos com o segundo momento “o universo não está MESMO a colaborar”: “não há ambulâncias disponíveis para fazer o transporte até ao próximo Hospital”. Suspiros. Reticências. Dúvidas. Muitas dúvidas em relação ao SNS, ao estado geral do país, à administração, aos impostos e às cativações. QUE MERDA É ESTA?!;

 

  • Passámo-nos, como’é’óbvio, e prosseguimos com o nosso próprio plano, intitulado “se a Moamé não vai à montanha, então a montanha vai a Moamé”. Resultado? Pegámos no meu pai e levámo-lo, no nosso próprio carro, para o Hospital, em Lisboa. Palmas…;

 

  • Como ainda existia alguma logística associada, o meu pai, a minha mãe, irmã e cunhado seguiram num carro e eu e o João seguimos noutro;

 

  • Foi no caminho para Lisboa que tivemos o nosso momento “UNIVERSO, WTF!?!?”: estávamos a passar na EN10, por uma zona com pouca iluminação e ladeada por mato cerrado, quando, de repente, sem aviso nem visibilidade um cão atravessou-se à nossa frente;

 

  • Este é, somente, o nosso PIOR pesadelo – atropelar animais ou crianças. Eu e o João temos pesadelos com isto;

 

  • O João travou a fundo, mas sem sucesso, pois ainda ouvimos o som da chapa a bater num pequeno corpinho;

 

  • Pensei, “já estás!”. Pelo som, temi o pior. Olhei para o lado e só vi o João com as mãos na cara, branco e a dizer, ininterruptamente, “matei um cão, matei um cão, matei um cão, matei um cão”;

 

  • Nesta fração de segundos, olhei em frente, para o meio do breu, e vi um vulto a correr. Gritei “o cão não está morto, está ali a correr”;

 

  • Ficámos os dois a olhar para o escuro, na esperança de confirmarmos a nossa desconfiança, e era verdade. Ele estava ali. Um corpo de porte médio, desorientado, ziguezagueante e completamente perdido, tão perdido que foi para a outra faixa de rodagem, ia sendo novamente atropelado, desta vez por uma mota, e foi só aí que correu manco para o nosso lado da estrada;

 

  • “O que vamos fazer?”, questionou o João? Respondi de imediato “temos que levar o cão ao hospital para ver o que tem”;

 

  • Relembro que, por esta altura, eram 1h40 da manhã, o meu pai estava a caminho de uma cirurgia de urgência em Lisboa e nós estávamos a tentar convencer um cão, abandonado (não tinha coleira e estava visivelmente magro) a saltar para dentro do nosso carro desconhecido;

 

  • Naquele momento, tínhamos várias preocupações em mente, VÁRIAS. Primeiro, não sabíamos o que o cão tinha, qual a gravidade do seu estado geral de saúde; Segundo, tínhamos medo de pegar no seu corpinho, pois se estivesse magoado ele podia, em defesa, morder-nos; Terceiro, não conhecíamos o cão e não sabíamos se era violento, sociável ou não.

 

  • Depois de algum tempo a tentar ganhar a sua confiança, ele lá se foi aproximando do carro. Levámos mais uns bons minutos até conseguirmos que ele metesse alguma patinha dentro da viatura e assim que ele se sentiu confortável, com a ajuda de uma mantinha, conseguimos ajudá-lo a entrar.

 

  • Seguimos a toda a velocidade para Lisboa, por esta hora só tinha que saber qual hospital veterinário, a funcionar 24h, é que poderia recebê-lo. Lembrei-me logo da SOS Animal. Eles foram muito solícitos e pediram-nos para levar-mos o cãozinho para lá.

 

  • Chegados ao hospital, iniciámos a bateria de exames. Ele parecia-nos bem. Apesar do que se passou, ele estava muito bem disposto, muito sociável, só podia festas, só queria a nossa atenção. Muito fofo e bonzinho.

 

  • A veterinária decidiu, por precaução, deixá-lo internado 24h para observação e mais exames. Confirmámos que era muito novinho, perto de 1 ano, saudável, sem complicações. Ficou só com uma das patinhas magoadas, resultado do embate, mas fora isso está IMPECÁVEL! Thank GOD!

 

  • Assim que preenchemos a papelada para o seu internamento, rumámos a toda a velocidade para o outro hospital, onde estava o meu pai e o resto da minha família, e ficámos lá até às 5h30, hora em que o meu pai foi operado.

 

  • Chegámos a casa às 6h30 da manhã, dormi uma hora, tomei banho, vesti-me e segui para o trabalho…

 

 

“In the end”, temos sempre de ver o copo meio cheio. SEMPRE!

A operação correu bem (mão pro’alto!). Salvámos um cão. E faltam 3 dias para entrar de férias.

Mas quem está a contar? 🙂

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