LIFE & LOVE

SERENA: NÃO SE PODE EVOCAR FEMINISMO NUM CASO DE MAU PERDER

12 Setembro, 2018

 

Eu estava aqui, vai que não vai, para escrever alguma coisa sobre este assunto, mas como já vi e li tanta coisa, na imprensa e nas redes sociais, com a qual não concordo que decidi lançar o corpo às balas e ser mais uma voz a analisar o episódio “Serena, a má perdedora”.

 

Sim, pelo título que dei já podem alvitrar o sentido da minha posição. Não é contra ou a favor, simplesmente não posso achar normal o que se passou na final feminina do US Open. E se aquilo foi uma manifestação de feminismo eu não sei se quero estar (como sempre estive) nesse lado da barricada, de uma luta por igualdade de direitos entre, e agora leiam com atenção, HOMENS e MULHERES.

 

Para quem esteve debaixo de uma pedra desde o fim-de-semana até ao dia de hoje, o que se passou foi o seguinte:

 

No sábado jogou-se a final feminina do US Open que opôs, para a conquista do título, Serena Williams de 37 anos, que se ganhasse ia conquistar o 24º título da sua carreira e igualar em feitos o record de títulos da australiana Margaret Court a maior campeã de Grand Slams da história do ténis, e Naomi Osaka de 20 anos, que sempre sonhou jogar contra Serena e nunca esperou estar numa final a defrontar a sua referência no desporto de eleição.

 

Contrariando as estatísticas e as preferências, Naomi Osaka deu “show de raquete” e manteve-se firme e forte durante todo o confronto, chegando à vitória por dois sets a 6/2 e 6/4 em apenas 1h19. Um resultado impressionante para uma tenista que acabou de conquistar o segundo grande título da sua carreira, o primeiro deste nível, frente à supra-sumo do ténis e o primeiro atribuído a uma jogadora de nacionalidade japonesa. Palmas para a Naomi.

 

O grande bruaá deu-se sensivelmente a meio da partida quando Serena, batidíssima nesta coisa das “mega-competições-desportivas”, começou a acusar a frustração e o desânimo face ao resultado que se adivinhava. Ela ia perder.

 

Do outro lado da bancada, o técnico de Serena, Patrick Mouratoglou, estava a gesticular para dentro do campo, a dar-lhe instruções, o que é proibido, pelo que recebeu uma advertência. A primeira de três nesta partida. A tenista americana começou a negar as evidências e irritou-se de tal maneira que partiu, em sinal de frustração e protesto, uma raqueta no chão, ao perder um dos seus serviços. Levou uma segunda chamada de atenção pelo árbitro que, por acaso, é português.

 

Depois de um intenso a acalorado bate-boca com Carlos Ramos, ela acaba por perder um ponto por desrespeito ao árbitro e é aqui que “the shit hits the fan“. Serena começa a chorar. Diz-se injustiçada com o resultado, que não fez nada de mal, que não mentiu, numa indignação profunda até ao final do jogo, com o público a vaiar toda e qualquer decisão do árbitro, inclusive a vencedora do torneio quando foi receber o prémio US Open. Foi mesmo muito triste.

 

O que aqui está em causa não é a perda desportiva de Serena, mas sim o que por ela foi invocado quando sentiu que estava a perder. As manifestações de frustração e as palavras que proferiu ao árbitro levantaram nova discussão sobre o sexismo no mundo desportivo.

 

Serena sentiu que Carlos Ramos estava a lidar com ela e a penalizá-la de maneira diferente apenas e só porque é mulher. Segundo palavras da tenista, ele nunca teria reagido assim se ela fosse homem e só porque ela teve um comportamento mais explosivo (normalmente associado ao género masculino) e reaccionário isso não foi bem aceite por Carlos Ramos, que a repreendeu injustamente.

 

Bom, contra factos não há argumentos, sempre me disseram, e o que é FACTO é que o treinador de Serena deu indicações à tenista quando não o poderia fazer, comportamento que acabou por admitir na conferência de imprensa depois da partida. De acordo com as regras da modalidade, Patrick Mouratoglou, estava em incumprimento por coaching. Serena foi devidamente penalizada por isso.

 

Serena retaliou dizendo que “Fazer batota é coisa que nunca fiz na minha vida. Tenho uma filha e ensino-lhe a fazer o correcto”. Também não sei se utilizaria a minha relação com a minha filha para justificar um comportamento meu, mas deixo apenas este pensamento no ar. Estou a imaginar-me numa reunião com o meu chefe a tentar justificar um erro com a relação que posso vir a ter com os meus filhos… hum… não sei não…

 

Quando partiu a raqueta em sinal de frustração, porque perdeu um serviço, a tenista voltou a ser advertida por comportamento e seguiu-se mais uma troca de galhardetes com o árbitro português: “Você roubou-me um ponto. É um ladrão também”. Ora, mais uma vez, partir a raquete de ténis é um acto que pode ser penalizado, portanto Carlos Ramos não procedeu de forma erra quando aplicou a sanção.

 

Depois deste confronto Carlos Ramos dá a machadada final na controvérsia e decide por um ponto final à conversa atribuindo uma terceira advertência a Serena por linguagem incorreta e, consequente, penalização de um jogo, acto que a tenista afirmou ser uma clara descriminação, uma vez que “há muitos homens aqui mesmo que diriam muita coisa, mas só porque são homens isto nunca lhes acontece”. Pois é Serena, mas também não é lá muito fixe chamares ladrão ao árbitro da partida. Estou a imaginar-me a chamar ladrão ao meu chefe, se calhar também ia levar com um processo disciplinar.

 

Deixo-vos só com a posição de Martina Navratilova, uma das maiores campeãs da modalidade, que tal como Serena teve que lutar pela igualdade de tratamento ao longo de uma carreira e pelo preconceito quando na década de 80 de assumiu como homossexual.

“Serena Williams tem parte da razão”, começa por escrever Navratilova num artigo de opinião publicado no jornal norte-americano New York Times. “Há uma grande diferença de tratamento para com as mulheres em relação a como o mau comportamento é tolerado ou não – e não apenas no ténis”, refere para depois criticar a forma como Serena se comportou na final.
“Mas, nos protestos contra o árbitro durante a final de sábado do US Open, ela também está em parte errada”, escreve Navratilova. “Não me parece que seja boa ideia aplicar um critério de ‘se os homens se livram sem castigo, as mulheres também deveriam livrar-se’. Parece-me que a questão que devemos colocar a nós próprias é: ‘qual é a melhor forma de honrar o nosso desporto e de respeitar os adversários?'”.
“A sr.ª Williams optou por discutir sobre o seguinte: insistiu que não fez batota, que não recebeu instruções do treinador e que, portanto, não deveria ter sido penalizada. Mas não importa se ela sabia que estava a receber instruções ou não. Ela estava, efetivamente, como o sr. Mouratoglou [o treinador] admitiu após a partida. E se ela sabia ou não, não é o importante. Portanto, nessa altura, ela recebeu um aviso – o qual não poderia ser anulado retroativamente – e atirou depois a sua raquete ao chão, uma violação automática. O sr. Ramos, efetivamente, não tinha outra opção que não retirar-lhe um ponto”, explica Navratilova.

 

A partida continuou, não por muito mais tempo, e Serena acabaria por ser derrotada historicamente pela primeira atleta japonesa a ganhar a competição.

 

Se já em campo os apupos ecoavam das bancadas, as redes sociais ficaram inundadas com todo o tipo de posições. Das mais extremadas às mais moderadas, das mais feministas às mais machistas, das mais técnicas às mais emocionais. Quem defendia e quem criticava Serena. Leu-se de um tudo.

 

O que nesta avaliação me custa mais é a analisar o comportamento de uma tenista que sempre admirei, que sempre falei aqui no blogue, por ser uma inspiração e por sempre ter lutado pelos direitos das mulheres no desporto. Ainda há pouco tempo ela foi proibida de usar um fato que era feito do mesmo material que os fatos de natação do Michael Phelps, por ser considerado demasiado revelador do corpo. RIDÍCULO!

 

Ou seja, não há dúvidas sobre a importância da defesa das mulheres no desporto, porque CLARAMENTE há muito ainda por fazer. Não há dúvidas de que no desporto, como em muitas áreas da sociedade civil, ainda existe muito machismo e descriminação.

Ainda neste US Open a tenista francesa Aliza Cornet despiu a sua camisola numa pausa do jogo, mostrando o seu top de desporto, e levou uma advertência do árbitro por conduta anti-desportiva. A sério!?!?! O que levou a que muitos tenistas (homens), em retaliação, postassem muitas fotos em tronco nu, em sinal de solidariedade para com a tenista francesa e, espante-se, nada lhes aconteceu.

 

Portanto, a descriminação existe. O duplo padrão e avaliação existe. Não vamos ser ingénuos a esse ponto.

 

Porém, o que senti ao ver as imagens e o comportamento de Serena, neste caso específico, é que a frustração deu lugar à vitimização e a evocação do sexismo é demasiado fácil quando não sabemos o que fazer.

 

E feminismo não é nem pode ser isso.

 

Não pode ser aquela palavra fácil que quando deitada cá para fora provoca medo, descrimina e altera a verdade.

 

Agora a questão impõe-se: Carlos Ramos aplicou bem as sanções de acordo com as regras do jogo ou actuou motivado por estigmas pessoais?

 

Para uma resposta científica e correcta, teríamos que fazer um levantamento exaustivo sobre todas as decisões tomadas pelo árbitro português para situações semelhantes em jogos de homens e de mulheres. O que muitas vozes vieram dizer para a praça pública é que Carlos Ramos já foi mais brando e menos rigoroso com homens em igual circunstância. Sou sincera, não tenho dados para afirmar isso.

 

Se houve tenistas homens que já fizeram e disseram pior e não foram penalizados? Sim! De certeza que sim. Eu já vi isso acontecer. Mas porque não foram significa que Serena esteve bem? Não creio.

 

Se a discriminação existe e se existe um duplo padrão na aplicação de sanções aos comportamentos anti-desportivos eles não podem justificar o comportamento de Serena. Ela até podia ser alvo de sexismo, mas a forma como reagiu não pode ser aceitável.

Inclusive, uma das partes que me constrangeu mais foi a forma como Osaka ficou diminuída, apesar da sua gigante vitória. Estamos a falar de outra mulher que também estava em campo e que merecia esse respeito pelo feito que conseguiu alcançar. Ela foi assobiada e vaiada quando estava a receber o troféu. Foi-lhe roubado o protagonismo que era só dela. Não é justo.

 

 

Uma coisa é certa, o machismo não está apenas dentro do campo de ténis, está cá fora. E uma das coisas que mais me impressiona é a tónica no discurso perpetrado pela imprensa quando informa sobre um acontecimento como o de sábado.

O destaque dado ao episódio de Serena nada tem que ver com os que se sucedem com tenistas homens e isso sim é discriminatório. Se fosse um homem era legítimo ele ter reagido daquela forma, como é uma mulher “há um descontrolo”. Como se fosse esperado que os homens reagissem de uma maneira e as mulheres de outra. Se um homem manifesta a sua divergência ele é considerado “de opiniões fortes” e “lutador”, se uma mulher se emociona e manifesta de forma aguerrida as suas vontades ela é “histérica”.

A forma como Serena foi logo catalogada na imprensa não deixa margem para dúvidas – há ainda um longo caminho a percorrer para chegarmos à igualdade.

 

E é por tudo isto que este episódio não pode servir para baixarmos os braços e aproveitarem-se deste momento para diminuir a causa. Ela existe. Continua viva. É preciso lutar. Sempre.

No sábado, infelizmente, foi apenas isto – Serena perdeu para uma jogadora que esteve melhor em campo e nenhuma raqueta destruída vai mudar alguma coisa.

Ponto final.

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