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BATE-PAPO

“SUPERNANNY” OU SUPER POLÉMICA?!

15 Janeiro, 2018

 

Ui ui ui quem viu ontem o novo programa da SIC, “Supernanny“, que fez explodir as redes sociais!?

Mal soube que a SIC estava a adaptar o programa fiquei curiosa para saber como iam abordar esta questão da educação infantil e marquei presença em frente ao ecrã para ver a estreia em directo.

 

Para quem não sabe do que estou a falar, a SIC adaptou o formato internacional do programa “Supernanny” já transmitido em 15 países como o Reino Unido, os Estados Unidos, a China e o Brasil onde uma profissional da área da educação infantil, ou da pedagogia ou da psicologia entra dentro da casa de famílias à beira de um ataque de nervos e ajuda a solucionar a rebeldia dos filhos.

 

Em Portugal o formato está a ser desenvolvido pela Warner Bros. TV Portugal, responsável por programas como o “Apanha Se Puderes”, que passa na TVI, ou “Portugueses pelo Mundo, da RTP e tem aos comandos pedagógicos a psicóloga clínica Teresa Paula Marques, especialista em mediação familiar, que vai acompanhar as rotinas de famílias com crianças que apresentam sinais de mau comportamento.

 

O que é que nós pudemos ver neste primeiro episódio de cerca de 40 minutos passados em prime time?

 

Um caso de uma mãe solteira, que se divorciou quando a filha tinha apenas dois anos, e que se debate diariamente por mais paz e harmonia no seu lar uma vez que a sua filha, hoje com sete anos, apresenta sinais de poucos limites à frustração, odeia ser contrariada, usa da violência para atacar a mãe quando as coisas não lhe correm de feição e tem falta de limites e regras em casa, não colaborando nas tarefas domésticas.

 

Depois de levantado este cenário, através de imagens captadas pela equipa de produção que está in loco dentro de casa desta família monoparental, eis que surge a “Supernanny” para dar conta da situação e depois de contextualizar todo o cenário começa a trabalhar com esta mãe e com esta filha, dando-lhes dicas e técnicas para superarem as situações sinalizadas.

 

 

Não sou especialista na área, nem da psicologia nem da educação, mas como espectadora posso dizer que achei a abordagem da Teresa Paula Marques respeitadora, empática e profissional. Senti humanidade na forma como se posicionou nas situações e as coisas que disse fizeram-me sentido. Penso que podemos generalizar dizendo que possivelmente fizeram sentido para muitas mães e pais deste nosso país que estão a passar pelas mesmas circunstâncias.

 

Porém, (que há sempre um “mas”) apesar de achar que o conteúdo é super válido, que as dicas sobre educação são muito importantes e que temos que abordar estas temáticas, porque há muitos pais e famílias aflitas por este país fora houve, no término destes 40 minutos, alguns alarmes que soaram na minha cabeça.

 

Liguei-me logo ao Twitter, esse grande barómetro de comportamento-opinativó-societal, para sentir o que é que as pessoas tinham achado sobre o programa e percebi de imediato que a coisa não ia correr bem.

 

Bem dito e bem certo!

 

Se em poucos minutos já tínhamos várias críticas à forma como a exposição da criança foi retratada, em poucas horas este era o trending topic do Twitter com muitas centenas de comentários a arrasar o novo programa da SIC.

 

Se tínhamos os famosos comentários: “mas isto é tipo tipo o Cesar Milan para crianças?”; ou “devia ser comigo, uma mulher vinha cá a casa ensinar-me a educar os meus filhos”; passando por “no meu tempo a ‘Suppernanny‘ era uma chapada do meu pai”; acabando em “este programa é o melhor anticonceptivo que já alguma vez inventaram”. Houve de tudo um pouco! Mas o que também houve foi muita gente a indignar-se com a forma como a identidade e privacidade desta família, mas em especial, desta criança tinham sido retratadas.

 

E é aqui que a porca torce o rabo.

 

Hoje, quando acordei li logo os principais destaques e entre eles estavam as notícias que davam conta das inúmeras queixas que a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) recebeu logo após a emissão do primeiro episódio de “Supernanny“.

 

Em comunicado lançado hoje, a CNPDPCJ afirma que se trata “de um conteúdo manifestamente contrário ao superior interesse da criança, podendo produzir efeitos nefastos na sua personalidade, imediatos e a prazo“.

 

No mesmo comunicado a Comissão explica que foi remetido para a “Entidade Reguladora da Comunicação Social um pedido de análise do conteúdo do programa”. De igual forma a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens foi confrontada com uma exposição do caso e a Liga de Defesa das Crianças protestou contra o programa, denunciando a degradação e humilhação impostas às crianças.

 

Também a Ordem dos Psicólogos invocou o código deontológico da profissão e princípios basilares como a “relação de confiança entre o psicólogo e o cliente”, a “diversidade individual” e a “privacidade” para justificar a sua posição contra a actuação de qualquer profissional de psicologia em programas de televisão.  A Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos manifestou-se, assim, contra formatos como o que estreou este domingo na SIC deixando claro que “dada a natureza da intervenção psicológica, a sua aparição no espaço mediático não é adequada, devendo limitar-se a situações genéricas e não adaptadas a casos particulares“.

 

 

Enfim, está lançado o bá-fá-fá televisivo!!!!

 

O que é que eu acho!?

Acho que aquilo que vi ontem é uma família, igual a milhares de famílias neste país, que precisa de ajuda urgente para resolver questões relacionadas com a educação dos seus filhos. Acho que nunca se falou tanto em correntes pedagógicas, em novas filosofias de educação, em problemas decorrentes da actual educação das crianças, nunca popularam tantos blogues de maternidade com dicas e truques para resolver problemas do dia-a-dia e, portanto, este é um tema actual, útil e pertinente.

 

Porém, contudo, todavia, portanto a minha grande reticência vai para a forma como o programa foi construído. Se as dicas e as estratégias dadas pela psicóloga têm a sua importância, a vida privada e íntima de uma criança de 7 anos foi tornada pública, desde as rotinas da cozinha, às birras, passando pela higiene na casa-de banho, até aos dramas da hora de ir para a cama.

 

 

Já para não falar de que houve ali alguns detalhes que foram abordados muito “pela rama” o que não permite, posteriormente uma aplicação directa noutros casos particulares. Não há receitas para educar. Cada criança é uma criança e cada família é uma família.

 

Até porque a não ser que vão espiolhar todos os detalhes da vida desta mulher, vai sempre ficar muita coisa por explicar, até porque há sempre arestas para limar que dependem da realidade familiar de cada um de nós.

 

É um assunto que não é linear.

 

Sabemos também que uma criança, não sendo maior, os seus direitos de imagem são autorizados e geridos pelos seus progenitores ou pelos seus tutores. E sabemos também que, neste caso, como nos é indicado pelo disclaimer final que encerra o programa, as imagens e conteúdos foram autorizados pela família.

 

 

Porém, não consegui parar de pensar, ao ver o programa, como é que aquela mãe e filha iam encarar a sua rotina esta segunda-feira, esta semana, este mês.

 

Que iriam dizer os colegas de escola da Margarida? Que comentários iriam proferir os pares desta mãe no seu local de trabalho? Que implicações existirão quando Margarida, já mais velha e com outro discernimento, olhar para este programa? Será que ela se vai sentir bem? Será que vai achar que a sua intimidade foi violada?

 

Poderemos sempre dizer que a mãe sabia ao que ia e que essa “consequência” será sua para lidar mais tarde com a sua filha.

 

Não sei…

 

Só sinto que este conteúdo, da forma como foi retratado, vai levantar mais polémicas do que iluminar famílias em apuros. Se calhar poderiam ter pensado num formato em que baseado em histórias reais se ficcionasse os momentos em casa, num look and feel mais de role play. Actores contratados dariam cara e corpo a estas diferentes problemáticas e a discussão far-se-ia de forma mais inócua.

 

Que acham? Acham que assim perderia a força? Achariam interessante este tipo de abordagem? Ou o episódio de ontem chocou e sensibilizou por se tratar de um caso real?

 

Também se poderia ter colocado vários especialistas a retratar cada uma destas problemáticas e falar sobre estes temas de forma mais genérica, sem dar exemplos tão particulares. Digo isto baseada na minha experiência como espectadora assídua dos vídeos produzidos por uma ex-educadora de infância brasileira, emigrada nos EUA, que decidiu partilhar aspectos muito concretos da educação infantil e da sua vida pessoal na jornada pela maternidade e que tem um sucesso incrível no universo luso-brasileiro do Youtube, estando a caminho dos 5 milhões de subscritores.

 

Recupero aqui o exemplo da Flávia Calina para mostrar que a ajuda na pedagogia e no crescimento saudável das crianças não implica a exposição de birras, conflitos e momentos embaraçosos que colocam a integridade da criança em causa.

 

Para estes temas, ela faz sempre uma abordagem muito generalizada, dando exemplos de crianças com quem já trabalhou ou de episódios ocorridos com os seus filhos, e dá ferramentas e estratégias para lidar com os problemas. Aliás, uma das correntes que segue é exactamente essa, a de respeitar, a qualquer custo, a integridade da criança, defendendo que desde bebés as crianças têm personalidade e integridade. É por isso que quando as seus filhos choram ou fazem birras ela opta por não registar esse momento, por considerar que aquele é um momento demasiado intimo e vulnerável para ser partilhado por uma audiência maior.

 

É isto que tenho a dizer sobre esta nova polémica das redes sociais. Sou super a favor que se discuta e se abra um diálogo sobre estas questões educacionais – acreditem, há mesmo muitooooos pais a precisarem – contudo a forma como apresentamos este conteúdo tem que ser mais respeitadora da intimidade e privacidade destas crianças.

 

Senti que faltou mais destaque às técnicas e dicas para resolver problemas semelhantes. Uma abordagem mais pedagógica e, por conseguinte, uma maneira mais subtil de evidenciar os problemas.

 

De recordar que o programa que a SIC estreou nasceu em Inglaterra e já passou pelos EUA e Brasil. Também na Alemanha, quando passou em 2005, suscitou polémica.

 

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