COOLÓMETRO, LIFE & LOVE

“WILD WILD COUNTRY” | O DOCUMENTÁRIO MAIS SURREAL DE SEMPRE!

29 Março, 2018

 

Comecei este texto apenas por querer destilar tudo aquilo que senti e pensei durante o visionamento de um documentário que me surpreendeu até à quinta-casa, porém, assim pela força dos nervos, podemos inserir esta dissertação no Capítulo: “Já sabemos que o sol se vai embora por isso vamos afogar as lágrimas pascais no sofá a ver séries, filmes e documentários e a enfardar chocolates como se não houvesse amanhã”. Boa?!

 

Quem está comigo?!

 

Todas não é? Suas sacaninhas!!!

 

Ora bem, pois que no sábado, depois de um passeio de mais de uma hora com o Maridão e com a Conchita-Perón,  sentámo-nos os três no sofá, pós-repasto de sobras da semana, a contemplar o que iamos ver na TV para ajudar à digestão.

 

Sr. Johnny, como sempre, nem passou pela Casa-Partida carregou na Netflix e, sem saber como nem porquê, já estávamos a vasculhar todas as novidades e conteúdos que ainda não tínhamos visto. Detivemo-nos na secção dos “documentários”, a minha preferida, para seleccionarmos aquilo que queríamos ver.

 

Havia dois que já tínhamos falado e que estavam na nossa lista:

Hitler’s Circle of Evil – o círculo íntimo de líderes nazis de Hitler, que sobrevive a lutas de poder, traições e conspirações, assume o controlo da Alemanha e traça o seu trágico futuro.

E o Take Your Pills: Receita para a Perfeição – Num mundo super competitivo, medicamentos como o Adderall potenciam o rendimento de alunos, atletas, programadores e pessoas comuns. Mas a que preço?

 

“Epah”, exclamei. “O primeiro deve ser muito hardcore assim para começo de tarde e o segundo para a digestão não deve ser lá muito bom. O que é que há mais?”.

 

Foi quando voltámos a passar revista pelos principais títulos dos Documentários que vi um título familiar – Wild Wild Country.

 

Tinha acabado de ler, há dois atrás, um artigo americano que me chamou muito à atenção pela temática e falava exactamente sobre este documentário como tendo sido a maior surpresa audiovisual do autor dos últimos tempos. O cronista falava em utopias, uma nova sociedade, uma questão religiosa, mas também comportamental e fiquei mesmo muito curiosa.

 

Não houve mais discussão e carregámos no play sem saber muito bem o que esperar. E o que vimos não tem explicação. Este documentário é o epíteto da expressão que defende que a realidade consegue ser muito mais estranha do que qualquer ficção. E se consegue… é o chamado ver para crer!

 

 

Não quero tecer muitos comentários, nem dar grandes spoliers sobre o que acontece no documentário. O que posso dizer sem revelar muito é mais ou menos isto:

 

Este documentário dividido em seis partes, dirigido pelos irmãos Maclain e Chapman Way, cada uma de pelo menos uma hora, passa-se no início da década de 80, quando uma corrente de seguidores bem posicionados, intelectuais, com dinheiro, criativos começa em peregrinação a marcar presença num Ashram em Purca, na Índia, para seguir os ensinamentos de um Guru – Filósofo (ele tinha licenciatura) que estava a transformar a vida de um batalhão de gente.

 

 

Bhagwan Sri Rajneesh, como era conhecido na altura, chamava a si próprio uma autêntica legião de fãs-seguidores que viajava de todas as partes do mundo só para ter um contacto físico, visual, auditivo com o seu mestre.

 

A filosofia de Bhagwan era libertadora (talvez por isso é que conseguia mobilizar tantas pessoas…), tudo cabia na sua forma peculiar de existência. Defendia a criatividade, gostava de luxos (era louco por Rolls Royces, tinha mais de 17 na Índia), acreditava no poder do dinheiro para a vivência em pleno das coisas mundanas e preconizava acerrimamente a libertação sexual, onde cada individuo deveria ser aquilo que sempre desejou ser e viver intensamente todas as experiências sexuais que pudesse caber num só dia.

 

Já estão a imaginar as surubas-loucas que aconteciam sobre o sol ardente lá na Índia, right!?! Imaginem isso, mas muitoooooo mais!

 

 

Porém, com a popularidade gigantesca que as suas filosofias iam conquistando no mundo inteiro, o Ashram na Índia estava a ficar, como se diz na minha terra, ao barrote, é o “povo cheio de gente” e a coisa estava a ficar incomportável.

 

Para gerir o “business“, Bhagwan empossou a sua mais fervorosa seguidora, Ma Anand Sheela, para se tornar a sua secretária pessoal, que se tornaria uma verdadeira dama de ferro em todo o processo utópico-megalómano.

 

 

 

A página tantas, não posso agora contar porquê, a comunidade Rajneesh, o seu mestre, e seus jovens discípulos vêm-se forçados a abandonar a Índia (talvez, digo eu, porque este novo culto misturava princípios do hinduísmo com valores capitalistas e um certo hedonismo).

 

Se o novo lifestyle podia ser discutível na Índia, na Terra das Oportunidades tudo era possível. E assim foi. Contra todas as estatísticas ou mirabolâncias a comunidade deslocou-se de Purca para… tan, tan, tan, taaaannnnnn, para Antelope, no Oregon, nos Estados Unidos profundos numa propriedade de 60 mil hectares.

 

Say what!?!??!!?

 

Foi exactamente isso que leram! Este people alternativo saiu da Índia e foi plantar-se perto de uma pacata cidadezinha de aposentados no meio dos rochedos da América onde montaram, criaram de raiz em menos de nada, uma mega cidade sustentável chamada de Rashneeshpuram.

 

A partir daqui all hell breaks loose!

 

A direcção dos irmãos Way de pintar toda a história com imagens da época, reais, com trechos de reportagens televisivas foi das coisas que mais gostei no documentário. Isso e colocar a contar as histórias os protagonistas que eram ex-membros do círculo intimo e de poder de Bhagwan, especialmente Sheela que é aqui a chave para toda a historia. Os diferentes ângulos de cada elemento evidenciam a complexidade do fenómeno, as motivações pessoais e as fragilidades humanas.

 

 

Eu confesso, NÃO FAZIA A MÍNIMA IDEIA DE QUE ISTO SE TINHA PASSADO nos Estados Unidos, com estes contornos novelescos com sabor a thriller, que bebem das emoções básicas de uma boa história de ficção: medo, ódio, inveja, raiva, amor, fidelidade, traição, mentiras, verdades, amor.

 

Imaginem!

O polémico líder de um culto cria uma espécie de cidade utópica no deserto do Oregon e o conflito com os habitantes locais torna-se um escândalo nacional. PA-PUM!

 

 

Estamos a falar de uma época em que os EUA viviam o drama do pós-Vietname e estavam assombrados pelo fantasma Jonestown – localidade onde um culto com um líder muito carismático incentivou um suicídio colectivo, morrendo mais de mil pessoas –  que assombra o imaginário colectivo americano.

 

Agora pensem numa mini-cidade de apenas 50 habitantes na América profunda, com muito idosos conservadores com fortes convicções nacionalistas que acaba por ter que conviver com um batalhão de gente totalmente diferente, vestidos de laranja, com rotinas completamente desconhecidas, e uma cambada de emigrantes vindos de não sei lá onde…

É a receita perfeita para o belo “the shit is gonna hit the fan“.

 

Começámos por ver um episódio e quando demos por nós eram 21h e não conseguíamos parar. Numa tarde-noite devorámos Wild Wild Country, quase em devoção. Entrámos ali numa espécie de Nirvana que não nos deixava carregar no stop.

 

 

No final terminámos a odisseia com uma sensação estranha. Um misto de fascínio por tudo aquilo que tínhamos acabado de ver (há ali coisas muito interessantes, acreditem!) com a sensação de que este documentário não é sobre um facto histórico isolado e rocambolesco, mas sobre algo maior.

 

Não é sobre religião, nem opções de culto. Não…

 

É sobre as motivações humanas que evocam ou destroem qualquer sonho ou utopia. Na minha mais sincera opinião é sobre descriminação, preconceito, aceitação do “diferente” e respeito pela vivência dos outros.

 

Em Wild Wild Country, um documentário seleccionado pelo Sundance Festival, não conseguimos deixar de questionar se o que estamos a ver é culto ou utopia.

 

INACREDITÁVEL é capaz de ser o adjectivo que melhor define esta viagem e cada uma das personagens em Wild Wild Country, na soma das partes, contam a ascensão e queda do culto a Bhagwan.

 

Pensem em manipulação, traição, envenenamento colectivo, orgias e tentativa de assassinato. Agora temperem tudo isto com uma pitada bem forte de fraude eleitoral, investigações do FBI e uma inarrável perseguição aérea.

 

Mas se isto já vos parece mirabolante é porque não sabem da missa a metade!

 

 

 

0

Leave a comment

About