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Crónica InShape | As Teorias da (Come)spiração!

6 Novembro, 2015

Todos trememos quando lemos nas páginas dos jornais, ouvimos nos noticiários e analisámos na Internet as várias noticias que davam conta do novo alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS): “Carnes processadas provocam cancro”.

Ok, esta noticia não é propriamente uma novidade. Já sabíamos que as carnes processadas não deviam fazer lá muito bem. Certo? De acordo com a investigação, a carne processada como bacon, salsichas e presunto aumentam o risco de cancro, sobretudo o colorrectal (intestinos) em 18 %. E para isso não é preciso comer quantidades industriais. Segundo a investigação, que incidiu sobre dez países da União Europeia e 448.568 individuos, cerca de duas fatias de bacon (perto de 50 gramas) é o suficiente para colocar a saúde à mercê da doença. Relativamente às carnes vermelhas (bife de vaca, de porco, de cavalo, etc), os investigadores admitem que esta é “provavelmente cancerígena”, mas os resultados não são tão evidentes quanto nas carnes processadas. Ainda assim, o seu consumo deve ser tido em conta. Mas daí até existir uma correlação tão directa entre o seu consumo e as suas consequências deixaram-nos a pensar e lançaram o pânico na industria alimentar, nas grandes superfícies de consumo e nos produtores deste género.

O debate na opinião pública foi alargado. Entre especialistas que escreviam diariamente em publicações de referência as suas notas sobre o assunto até debates televisivos sobre o tema, as carnes processadas andaram na boca do povo (literalmente e metaforicamente) à espera de um desígnio maior e mais saudável. Um dos debates a que assisti sobre o tema aconteceu na segunda-feira passada no programa “Prós e Contras” da RTP, que apresentou a problemática recorrendo a um vasto painel de comentadores, especialistas, médicos, engenheiros alimentares e profissionais da industria. Não vos vou contar tudo o que por lá se discutiu, mas no rescaldo o balanço foi, pelo menos para mim, bem positivo. Acho que a discussão foi elevada e informada, esgrimindo-se argumentos muito válidos em todos os campos. Contudo, acabei de ver o programa e fiquei sem saber realmente o que fazer… E se isso me aconteceu é bem possível que tenha acontecido com mais pessoas. Por isso, estou a alargar a reflexão e a lançar a discussão:

Afinal o que é que nós podemos comer?!

Esta é, nos dias que correm, a million dollar question!
Quer por motivos preventivos, ambientais ou de saúde, a alimentação está na moda, na ordem do dia. O acesso à informação democratizou-se com a quantidade de metadata disponível para consulta na Internet. Hoje podemos, sem sair da nossa zona de conforto, vulgo “cú alapado à cadeira em frente ao computador”, tirar um mestrado em nutrição, dar consultas de alimentação aos amigos e colegas do ginásio, fazer receitas “buéda saudáveis” e partilha-las nas redes sociais, seguir um mantra alimentar budista e até defender que só comer bagas goji vai salvar-nos de uma evasão marciana.
Se seguimos uma dieta vegetariana dizem-nos que é pobre em alguns nutrientes. Se alinhamos pela Dieta Paleo vêm logo atirar que é demasiado proteica. Se vamos para uma macrobiótica, esfregam-nos na cara que é carregada de hidratos de carbono. Se compramos produtos com o selo biológico, vêm-nos dizer que afinal eles não são assim tão biológicos. Se desopilamos à vontade à mesa somos uns ganda’malucos que não cuidamos de nós e só queremos fast food. Ufa!

C-A-L-M-A-! Acho que estamos todos a precisar de muita calma nessa hora!

A minha teoria?! É que existem demasiadas TEORIAS DA (COME)SPIRAÇÃO!

Quase como uma seita, as pessoas estão a defender aquilo que comem como se de uma crença se tratasse, ou como se cada nutriente que ingerissem os defini-se. “Uma reza à mesa todos os dias, nem sabe a saúde que lhe traria”, vendo já aqui o slogan! Mas NÃO! Não pode ser assim!

Houve, de entre o painel de convidados do programa citado, um investigador alimentar que para mim disse tudo aquilo em que acredito: temos que, à luz das formas de produção alimentar contemporâneas, repensar globalmente o conceito de alimentação. Trocando por miúdos, temos que utilizar a alimentação não só como combustível útil e necessário para o nosso organismo, mas também pensar nas formas como são produzidos os alimentos que estamos a consumir, por forma a escolhermos melhor os nossos nutrientes e a diminuirmos a nossa pegada ambiental.

Saber que o maior produtor de CO2 provém da industria alimentar, na criação de gado em ambiente industrial é fazer alguma coisa para mudarmos não só a aquilo que comemos, mas também o meio ambiente. E uma coisa não pode estar desfasada da outra. Ter conhecimento desta informação é saber que não podemos comer carne todos os dias, que devemos, como o próprio disse, não acompanhar a proteína com legumes e grãos, mas o seu contrário. Encher o prato de verdes, de leguminosas, preferencialmente de produção nacional e da época, e acompanhá-los com proteína à escolha.
A questão é só esta: comer comida de verdade! Este tem que ser o principio orientador. Tudo o que não vem da terra, do mar o do ar não deve (claro que podemos sempre dar uma facadinha no matrimónio alimentar) ser consumido no dia-a-dia.

Repensar a alimentação é saber que, se calhar, não precisamos de estar sempre a comer a toda a hora quantidades gigantes, a não ser que o nosso trabalho assim o exija. É saber que carne (preferencialmente branca) e peixe em moderação devem ser acompanhados SEMPRE por muitos legumes. Evitar os alimentos processados, carnes incluídas. Privilegiar a produção nacional e os produtores locais. Saber de onde vem a nossa carne do talho do bairro. Fazer perguntas de como é apanhado o peixe que compramos na praça. Falar com o senhor que está a vender os legumes no mercado e questioná-lo sobre a sua origem. Verificar se os ovos que estamos a comer vêm de galinhas criadas ao ar livre (esta informação está sempre nas caixas). Evitar os doces que não sejam naturais. Escolher fruta da época para consumir em casa, no intervalo das refeições. Ser feliz. Ponto! É este o meu mantra saudável. Não alinho em extremismos, não alinho em modas, gosto de comer simples, clean, e de forma verdadeira, sabendo que pequenas alterações em cada casa, podem fazer a diferença na prevenção de doenças a longo prazo, na melhoria do ambiente, na potenciação do exercício físico e da disponibilidade emocional. E vá, uma chouriça de vez em quando não faz mal a ninguém, porque tudo o que é “de vez em quando” não é sempre e é no sempre que reside a diferença. “The Truth is Out There”. Ai está, está!

E vocês? Têm alguma TEORIA?!

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