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Crónica InShape | ORTOREXIA UMA DOENÇA OU UM PALAVRÃO?

10 Setembro, 2015

Olaaaaaaaaaaaaaaá minha gente gira-fit-maravilhosa-bombada-saudável!!! Como foram essas férias?
Estou de volta, cheia de força, algum bronze, muitos mergulhos no cadastro, cheia de boas energias e vontade de começar o novo ano (sim, para mim o ano começa em Setembro) com muitas novidades e coisas giras para ir partilhando aqui com vocês.

Começamos com um tema bombástico – Go big, or go home, certo?

No outro dia, com um grupo de amigos que são adeptos de um estilo de vida muito saudável, que praticam muito desporto, que têm muita atenção à sua alimentação, falávamos sobre os desafios que este modo de vida acarreta, desde o preparar comida em casa para fazer escolhas saudáveis, a cozinhar antecipadamente as marmitas, a treinar religiosamente, a ter atenção ao corpo e à sua definição. Depois divagámos sobre a possibilidade deste estilo de vida ser ou não obsessivo. Questionámos qual é a linha que separa o que é saudável do que não é? Qual é o limite que nos indica se estamos a ser cuidadosos e zelosos pela nossa saúde e por uma estética que apreciamos ou apenas doentios? Será que nos estamos a tornar escravos de uma alimentação saudável? Mais restrições significa mais bem-estar? Qual é o limite? Há limites? Na busca de um corpo são o que fica pelo caminho?

Fiquei a pensar em tudo o que tínhamos partilhado nessa noite e decidi pesquisar sobre este fenómeno de “vida extremamente saudável” e foi nesse processo que me deparei com um artigo que falava de um conceito que até então desconhecia, também, porque é uma problemática recente que decorre deste excesso de vida “demasiado” saudável. Chama-se “ortorexia” e é um transtorno alimentar que advém do excesso de “vida saudável” e de escolhas que por serem tão rígidas e dogmáticas se tornam obsessivas. Já conheciam este conceito? Sabem o que é que esta palavra significa? Não? Então vamos começar pelo principio.

A palavra “ortorexia” deriva do grego – “orthós” que significa correto e “orexsis”, de fome – e foi um termo criado pelo médico americano Steven Bratman, autor do livro Health Food Junkies, em tradução livre Viciados em Comida Saudável. Segundo ele, quem apresenta o problema possui uma fixação por alimentação saudável e chega a gastar horas pensando no assunto. Mas afinal qual é a fronteira entre a normalidade e a patologia?

Eu acredito que é quando o nosso bem-estar, qualidade de vida e quotidiano é comprometido. É uma linha ténue, muitas vezes difícil de identificar. Contudo, acredito que essa linha é ultrapassada quando uma pessoa passa a viver em função da comida (como acontece com a bulimia e a anorexia), ficando prisioneira de uma alimentação, que apesar de saudável, é bastante restritiva.
“Que o vosso alimento seja o vosso tratamento” disse Hipócrates, pai da medicina, mas eu, Marta, acrescento que não seja também a vossa doença. Comer saudável sim, fazer opções correctas sim, mas a linha que separa o saudável do obsessivo mede-se pelo impacto que essa escolha tem na nossa vida. Perguntem-se: de que forma eu condiciono a minha vida por isto? Eu isolo-me? Eu não vou a eventos sociais? Não consigo ter uma vida normal? Acho que esta é a bitola – a normalidade aplicada ao social e ao bem-estar.

É engraçado que, nem a propósito, no outro dia vi no canal de Youtube da Gabriela Pugliesi, essa musa do fitness brasileiro, uma entrevista feita à actriz e apresentadora Dani Suziki, em que a própria falava de uma altura da vida dela em que se tornou vegetariana, depois vegan hardcore, e de como essas escolhas altamente restritivas fizeram com que a sua qualidade de vida fosse altamente comprometida, as suas amizades, as suas rotinas e a sua forma de ver o mundo. Só quando engravidou e percebeu que tinha que mudar abruptamente a forma de se alimentar é que percebeu que as suas escolhas não estavam a ser nada saudáveis, o que não deixa de ser um contra censo. Ela não deu o nome de ortorexia, mas possivelmente esse seria o seu diagnóstico. O que acontece muitas vezes é que estes indivíduos, numa busca pela purificação do corpo, acabam por eliminar certos alimentos e até grupos alimentares completos, decisões que podem gerar carências e deficiências vitamínicas e, em casos mais graves, levar à morte.

Um outro caso, diagonosticado de ortorexia, foi o de Jordan Younger autora do blog The Blond Vegan, que em Julho de 2013 iniciou esta partilha online de um estilo de vida super saudável e estava longe de imaginar o sucesso que ia ter nas blogosfera e nas redes sociais. No Instagram publicava diariamente imagens das suas saladas coloridas, textos sobre a alimentação totalmente vegan, e orgulhava-se das escolhas que tinha tomado. Deixou de comer qualquer tipo de alimentos processados, livre de gluten e de óleos, sem açucares refinados, ou de origem animal e estava a sentir-se lindamente. Contudo, aquilo que parecia ser o caminho revelou-se uma prisão infernal. “Comecei a viver numa bolha de restrição”, escreveu numa publicação de Junho de 2014 e começou a ter complicações graves decorrentes da sua alimentação. “Vivia a minha vida com base naquilo que podia e não podia comer”. Depois de diagnosticada com ortorexia, Jordan reavaliou o seu bem-estar, a sua relação com a comida, abandonou a dieta vegan e mudou o nome do blog para The Balanced Blonde.
Esta história para além de inspiracional alerta para a raiz do problema – o equilíbrio – que é o que acredito ser a chave para uma vida saudável. O segredo, para mim está em comer um bocadinho de tudo aquilo que é verdadeiro, comida real, porque acima de tudo somos aquilo que comemos, mas também somos aquilo que sentimos. Como diz Bratman “Antes partilharmos uma pizza com os amigos do que comer vegetais sozinhos”. Amem.

Reforço que com este artigo não pretendo fazer apologia de uma dieta em detrimento de outra, nem afirmar que quem é Vegan é ortorexico. Nada disso. Estes foram apenas dois exemplos que encontrei sobre o tema, mas não pretendem ser difamatórios desta dieta específica. Conheço muitos vegans que têm uma relação super saudável com a comida, são felizes e vivem a vida com muita normalidade.

Para terminar, deixo-vos um quizz que eu gostaria que fizessem só para se testarem. Como ainda não há formas concretas de diagnosticar a ortorexia, vários investigadores têm vindo a desenvolver questionários de forma a quantificar a prevalência. Cinco respostas afirmativas a estas perguntas indicam um estado potencialmente patológico. Façam e digam-me os vossos resultados. Eu, já fiz!

Teste de Diagnóstico:

1. Gasta mais de três horas por dia a pensar em alimentação?
2. Planeia as suas refeições com muitos dias de antecedência?
3. Considera a composição nutricional de um alimento mais importante do que a sensação de prazer que ele lhe proporciona?
4. Sentiu uma diminuição na sua qualidade de vida quando a qualidade da sua alimentação mudou?
5. É cada vez mais rigoroso com as suas escolhas alimentares?
6. Alimentar-se de forma saudável melhorou a sua auto-estima?
7. Rejeita consumir alimentos de que gosta por não os considerar bons para a sua saúde?
8. Tem dificuldade em fazer refeições fora de casa e afastou-se de amigos e familiares?
9. Culpa-se quando ingere algum alimento que não considera saudável?
10. Acredita que tem controlo total sempre que se alimenta saudavelmente?

Bons regressos! 
Bom Setembro!
BONS TREINOS!

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