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Crónica New in Town | BUUUUUUUU! Ai que susto, este Halloween!!!

28 Outubro, 2015
BUUUUUUU!
Assustaram-se? Não?! Mas eu sim. Ontem quando entrei na Academia para ir fazer a minha aulinha de dança dou de caras, na recepção, com uma aranha peluda nojenta, gigante, pendurada sobre as cabeças acabadinhas de chegar, fazendo as honras da casa devidamente trajada para esta efeméride que não é de ninguém (pelo menos de nenhum português…). 
Quase que dei um berro em plena praça gímnica, porém consegui, não sei como, controlar-me. Discretamente olho para a recepcionista para lhe perguntar “Ta’heel é que se passou aqui? Quem é que teve esta belíssima ideia de colocar aranhas nojentas espalhadas pela recepção do ginásio”? Só que quando ela se vira eu percebo que não valia a pena o meu esforço inglório. TODA ela estava pintada de “sei-lá-o-quê”, com um chapéu de bruxa, all halloween-style. Pensei “não vale a pena pregar nesta freguesia que, claramente, já se converteu aos trajes místicos do além”. 
Entrego o meu cartão, tentado afastar-me ao máximo do campo visual que me dava o grande plano da bicha-peluda-patuda. Recebo as chaves do meu cacifo. Indignada volto costas para me dirigir para o balneário, apenas para dar de fronte com uma MEGA teia de aranha, do chão ao tecto, com mais uma bicha a pairar para meu infortúnio. OMG! Mais uma vez ia gritando, mas não, não chegou a acontecer. Thank GOD!
Quando chego ao balneário qual não é o meu espanto quando percebo que nas conversetas paralelas, o mulherio estava igualmente indignado com o “tema” da decoração. “Eu tenho pavor de aranhas, não sei como é que vou conseguir vir treinar esta semana”, vociferava uma. “Não achei piadinha nenhuma”, afirmava outra. “Realmente, que raio de ideia tiveram”, concluía a terceira. Eu, calada no meu canto, só tinha vontade de largar ao abraço e concordar com as minhas congéneres. “Percebo-vos, migas! Que raio de ideia! Abaixo as aranhas mutantes-cabeludas-peludas-patudas”. Mas não disse nada. 
Equipei-me e fui à minha vida.
No final do treino, quando tive que encarar a recepção (AGAIN), decidi colocar a minha visão periférica-selectiva a funcionar para não mirar o dantesco cenário. Peguei no meu cartão e segui caminho. Contudo, não deixei de pensar, no caminho de regresso ao trabalho, como é que eu ia voltar ao ginásio e como é que eu ia treinar esta semana. Perguntas que só encontram resposta na evidencia que se revela e questiona – PORQUE RAIO É QUE ESTAMOS A CELEBRAR O HALLOWEEN!?!? 
A sério, pessoas cultas e interessantes que leem esta plataforma espectacular de cultura, lazer e informação, quando é que nós começámos a vestirmo-nos de bruxas, a pintar abóboras, a comprar máscaras, a decorar espaços públicos e a infernizar a vida dos outros? Hello? Alguém?
Eu sei que este parlapié todo vêm de um dark place of mine (só assim para ainda continuarmos no tema), de medo e pânico às bichas-patudas-peludas, mas à parte deste pequeno grande pormenor a indignação ressoa – esta é uma tradição americana! Ponto! Será que os americanos no 13 de Junho também celebram o Santo António e comem sardinha assada na rua enquanto dançam no bailarico lá do bairro? NÃO! Porquê? Porque essa efeméride não faz parte do seu legado cultural. Então, porque é que nós, lindos portugueses, tivemos que nos aculturar de uma tradição que nem sequer sabemos a sua origem ou intenção? 
A Alexandra-Lencastre-Wikipédia-Wannabe desceu em mim e fez-me pesquisar sobre esta origem. Afinal o que é o Halloweene o que se celebra? 
O “Dia das Bruxas” (Halloween é o nome original na língua inglesa) é um evento tradicional e cultural, que ocorre principalmente em países de língua inglesa, mas com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como origem as celebrações dos antigos povos Celtas. Estão a ver? Estão a ver algum Portugal aqui enfiado? Bem me parecia… Adiante.
O primeiro registo do termo “Halloween” data de 1745 e dizem-nos os entendidos que derivou da contracção do termo escocês “Hallo-Hellu” (véspera do Dia de Todos os Santos) que era a noite das bruxas. Porém, temos que ser precisos e, de facto, no Cristianismo existe o costume de celebração das chamadas Vésperas, que acontecem no último serviço religioso do dia, depois do anoitecer, em que se celebra o dia que está por vir. E a seguir ao Dia das Bruxas, 31 de Outubro, acontece por oposição o Dia de Todos os Santos, a 1 de Novembro de cada ano. Com a Cristianização das Ilhas Britânicas,de maioria Celta, houve uma mistura dos costumes das duas religiões.
Reza a lenda que entre o pôr-do-sol do dia 31 de Outubro e o dia 1 de Novembro ocorre a noite sagrada (hallow evening, em inglês). Acredita-se que assim se deu origem ao nome atual da festa: Hallow Evening Hallowe’en Halloween, sendo que o termo “Dia das Bruxas” não é utilizado pelos povos de língua inglesa, uma vez que essa é uma designação apenas dos povos de língua (oficial) portuguesa. Contudo, esta designação perpetuou-se e a comemoração do Halloween, levada até aos Estados Unidos pelos emigrantes irlandeses no século XIX, ficou assim conhecida como “dia das bruxas”, uma lenda histórica, celebrada todos os anos na América. 
Se analisarmos o modo como o Halloween é celebrado hoje, vemos que muito pouco deriva das suas origens. Só restou uma alusão aos mortos, mas com um carácter completamente distinto do que tinha inicialmente. Além disso foi sendo pouco a pouco incorporada toda uma série de elementos estranhos tanto à festa de Finados como à de Todos os Santos.
Entre os elementos acrescidos, temos por exemplo o costume das “máscaras”, muito possivelmente nascido na França entre os séculos XIV e XV (diz a Sra.Wikipédia). Nessa época a Europa foi atingida pela Peste Negra e a peste bubónica que dizimou perto de metade da população do continente europeu, criando entre os católicos um grande temor e preocupação com a morte. Multiplicaram-se as missas na festa dos Fiéis Defuntos e nasceram muitas representações artísticas que relembravam às pessoas a sua própria mortalidade, algumas dessas representações eram conhecidas como danças da morte ou danças macabras. Uuuuhhhhhhhhh scary!
Alguns fiéis, dotados de um espírito mais burlesco, costumavam adornar na véspera da Festa de Finados as paredes dos cemitérios com imagens do diabo puxando uma fila de pessoas para a tumba: papas, reis, damas, cavaleiros, monges, camponeses, leprosos, etc. (afinal, a morte não respeita ninguém). Também eram feitas representações cénicas, com pessoas disfarçadas de personalidades famosas e personificando inclusive a morte, à qual todos deveriam chegar.
E é assim que chegamos aos dias de hoje, com toda uma indústria que se aproveitou destes ritos de passagem para nos fazer adoptar abóboras sorridentes, para vender máscaras medonhas e uma oportunidade muito disfarçada de emborcar doces como se não houvesse amanhã, ou o trick or treat (“doce ou travessura”, em português, é uma atividade infantil e também adulta típica do Halloween, celebrado principalmente nos países de língua inglesa, onde crianças vão de casa em casa, pedindo por iguarias, geralmente doces, através da pergunta trick or treat?. Se responderem “doce” as pessoas dão doces às crianças, se disserem “travessura” as crianças assustam-nas com máscaras. Supõe-se que a tradição britânica e irlandesa de pedir o “soul cake“, bolo das almas, terá dado origem à tradição do trick or treat nos Estados Unidos. Esta expressão é o equivalente ao Pão-por-Deus que tem lugar no Dia de Todos-os-Santos) ainda não chegou a este rectângulo à beira-mar plantado? Estas é que são as grandes questões da vida…
Quanto mais sei, mais tenho a certeza de que não faz sentido (já agora podem-me convidar para o programa da Sic Mulher. Obrigada). Não faz! Não faz sentido celebrarmos esta data que não nos pertence, muito menos assustar pessoas fit que só querem ir ao ginásio malhar, mas que têm que levar com a morte no focinho. Não somos americanos, thanks! Estou indignada. Abro aqui o abaixo assinado contra o Halloween. Que me perdoem as almas que esperam qualquer oportunidade rocambolesca para se mascararem, mas… #NÃOFAZSENTIDO. 
Disse.

Marta, a Presidente. Ponto. 
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