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Crónica New in Town | A Woman’s Right to Shoes

19 Agosto, 2015

A crónica não é sobre um lugar em especial, uma proposta de actividade imperdível, uma dica extraordinária ou uma experiência memorável. É sobre a discriminação e bullying feminino perpetrado por esta altura de férias grandes.

O título deste manifesto é: A Woman’s Right To Shoes!

Em português é qualquer coisa como “As mulheres têm o direito de escolher”, sendo que aqui o catch da frase recai exatamente sobre o trocadilho “Shoes” em oposição a “chose”, o que faz com que a frase tenha o seguinte significado: “As mulheres têm direito aos seus sapatos”. Amén!

Bom, convém dizer que apesar de genial, o trocadilho não é meu. É o título de um dos meus episódios preferidos da minha série de culto “Sexo e a Cidade”(temporada seis, episódio 9). Neste episódio, a protagonista Carrie vê-se num babyshower todo fancy, com uma mãe-amiga super purista dos ambientes cristalizados e imaculados, que obriga todos os convidados a descalçarem-se para poder entrar na festa. Até aqui tudo bem. A casa é dela, que faça o que bem entender, se bem que mandar tirar sapatos sem avisar é sempre uma coisa muito arriscada. Assim pela força dos nervos ocorre-me logo aquele momento em que sem sabermos as nossas meias ficaram furadas por um sapato mais incómodo e ficámos com o dedão maior a arejar em vergonhosos momentos ou… ou…a sulfato de peúga, que há sapatos completamente devastadores face à nossa máxima higiene. Estou a falar de muitos ténis e das desgraçadas sabrinas ou bailarinas. É impossível. É morte! São à prova de sabonete e de boa vontade pública. Fica já aqui um aviso: se alguém quiser entrar por estas modas do “pé-ao-léu”, atenção. Pode sair-vos o cheiro pela culatra.

Bom, back to the story, a nossa Carrie, como sempre, estava montada nuns Manolo (lindooooooooooooosss) e torce logo o nariz perante o estranho pedido, ainda para mais quando os sapatos faziam a totalidade do look (pppppfffff, ninguém percebe), mas não quis fazer a desfeita e deixou as suas preciosidades a descansar no hall de entrada.

Claro que quando chegou a hora de voltar a calçar os bichinhos, alguém os tinha levado “por engano”. Ups! “Oh, no you didn’t”, era o que eu pensava. A dona da festa, que obrigou à tal perpetuação do ritual “pé descalço”, diminuiu a situação, lavou as mãos, não se responsabilizou pelo furto e, inadvertidamente, quase chamou Carrie de fútil por estar preocupada com uns “meros sapatos” e mandou-a para casa aguardar por mais novidades, de ténis rascos e rasos. Não se faz!

Depois de vários telefonemas de Carrie para a amiga (inimiga de germes) a perguntar pelo paredeiro dos seus queridos sapatos, as duas acabaram por trocar uns galhardetes menos amistosos e a outra acabou a lançar a deixa que não se pode utilizar por nada neste mundo: diminuir o problema de uma pessoa, porque se acha que os seus valores são menores ou menos importantes do que os nossos. Um big no! no! Ou seja, a amiga moralista de Carrie ousou dizer que a cronista, como não tinha filhos, andava a gastar o dinheiro todo em sapatos e em coisas fúteis e que deveria estar preocupada com outras coisas, como arranjar marido e ser mãe, em vez de lhe estar a chateá-la por causa de uns mero sapatos. E é aqui que vem a moral da história.

Carrie sai desta conversa completamente arrasada, a sentir-se a pior pessoa do mundo, a analisar as suas escolhas pessoais e o rumo da sua vida, para chegar à belíssima conclusão de que a vida é dela, o dinheiro é dela, e ela sente-se lindamente no papel que está a desempenhar na sociedade. Pumbas!

O episódio acaba com um telefonema genial de Carrie para a suposta “amiga”, que cai na caixa de mensagens da dita com o seguinte conteúdo: “Olá não-sei-quantas, sei que não concordas com o meu estilo de vida, mas eu tive que concordar com o teu. A sociedade desvaloriza as mulheres por não fazerem determinadas escolhas e se pensarmos bem, uma mulher solteira só recebe presentes no seu aniversário, enquanto que outras mulheres que escolheram outros caminhos estão permanentemente a ser presenteadas, quer seja pelo casamento, pela chegada dos seus filhos, pelos seus aniversários e da sua prole. Acho injusto. Por isso, eu Carrie, estou a festejar o facto de ser solteira, vou dar uma festa, e deixei a lista de presentes na Manolo. Obrigada!”. SHA-BAM!!! Assim se calam bocas!

A outra encaixou a dica e foi a correr comprar os sapatinhos de mais de 500 dólares e já gozou! Adoro este episódio por isto. Não podemos julgar os outros pelas suas escolhas, nem achar que umas são mais importantes que outras. São escolhas. São pessoais e se não comprometem com a liberdade de ninguém não têm que ser julgadas ou questionadas por isso. E isto tudo para dizer o quê? (Ainda estão aí?)

Que eu sofri bullying neste início de férias de verão porque toda a minha família está de gozo comigo por causa da quantidade de roupa que trouxe para cinco dias de férias no Algarve e, em especial, pela quantidade de sapatos. Sim, são mais sapatos que dias, são mais roupas que dias, são mais biquínis que dias, são mais TUDO que dias. E quê?!

Fiz a minha mala, levei-a até ao carro e carreguei-a para o porta-bagagens. Voltei a descarregá-la e desfiz a mala. Ora, porque raio é que eu não posso trazer um carregamento de sapatos?

A saber, eu fiz a minha própria mala, foi o carro que a transportou, eu levei-a até ao carro e carreguei-a para o porta-bagagens. Voltei a descarregá-la quando cheguei ao destino e desfiz a mala com as minhas próprias mãos. Ora, porque raio é que eu não posso trazer um carregamento de sapatos? O que é que isso diz de mim? Diz apenas que gosto de conjugar vários modelitos com vários sapatos. Que gosto de opções. Que sou indecisa. Que possivelmente não vou ter vontade de comprar mais sapatos nesta viagem (atenção para o possivelmente). E que sou viciada em sapatos, como 90% das mulheres, arriscaria dizer. É preciso apedrejar-me diariamente por causa disto? Fazer piadinhas diárias? Tirar fotografias ao espólio em tom jocoso? Magoei.

A woman’s right to shoes, porque nunca devemos questionar as escolhas alheias, sejam elas de que natureza forem. Mais idealistas, morais ou fúteis. São nossas! Agora deixem lá as mulheres fazer as malas de viagem como quiserem que ninguém tem nada a ver com isso. Ok?! Se não daqui a nada começam a aparecer listinhas de festas nas lojas da Avenida da Liberdade e começam a receber telefonemas e não sabem do que é. Depois não digam que não vos avisei.

Boas férias, minha gente!

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