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Dantes é que o jornalismo era bom. A sério?

5 Março, 2015

Hoje li o editorial da Bárbara Reis do Público e só me apeteceu ir lá à redacção e dar-lhe uma beijufa na cara e dizer “Miga, ganda texto. É mesmo isso”.

Quantas e quantas vezes como jornalista nos vários variados contextos ouvi vezes e vezes sem conta de colegas de profissão, cidadãos anónimos, altas individualidades e especialistas a famosa frase “dantes é que o jornalismo era bom”. E a minha expressão era a mesma de Bárbara (BFFs por esta altura!) – a sério!??! É que há semelhança da jornalista do Público, eu não acho nada isso!!!!

Sem revelar muito sobre o texto dela que DEVEM MESMO LER (e que deixo em baixo na integra) só posso dizer que concordo em absoluto com a reflexão antológica da Bárbara Reis. Nas redacções por onde passei assisti in loco a estas transformações (lembro-me perfeitamente de jornalistas da ficarem escandalizados quando perceberam que tinham que despender muito do seu tempo a produzir conteúdos que fossem aplicáveis a várias plataformas multimédia. Alta revolução!). Não só tecnológicas, de passagem do papel para o digital, mas de mentalidades. E, essas, são sem dúvida as mais difíceis de mudar.
Aos Velhos do Restelo do pensamento e da modernidade, que constantemente encalham na premissa de que “dantes é que era melhor” eu digo que é pura e simplesmente um acto de short-seeing. É uma alienação da realidade que em nada contribui para um jornalismo mais ao serviço do seu público, mais verdadeiro e se me é permitido, mais criativo.

Ainda esta semana dei conta de alguma indignação face à “morte” (há muito prevista) do suplemento de referência do DN sobre televisão, artes e cultura. Muitos foram os jornalistas que se insurgiram contra este falecimento. “Mais um corte”, “Assim o jornalismo vai morrer”, “Qualquer dia não temos o que escrever ou ler”… enfim, um relambório vocal e aparentemente sustentado nesta visão classicista do negócio. Eis que surge nas redes sociais o próprio do director do suplemento que foi à vida. Nuno Azinheira (brilhante!) escreveu um belíssimo texto sobre o que era esta “passagem” do papel para o digital. Reforçando que o trabalho que desenvolveu de critica cultural ia manter-se inalterado, só que noutro formato. E ele estava bastante satisfeito com a passagem. É que a questão é essa! Hoje, com as novas plataformas comunicacionais estamos mais próximos de quem nos lê e podemos ser mais activos, mais escrutinados, mais responsabilizados, mais aplaudidos quando chega à hora de fazer um click e send.
Agora, há que saber adequar as novas linguagens a um novo modelo de negócio, a um novo modelo publicitário que sustente com força tudo aquilo que implica estar online “com qualidade”. Porque, tal como afirma Bárbara, “procurar informação, verifica-la e dar-lhe um sentido” para sermos independentes, nós sempre fizemos e continuamos a fazer, mas dá trabalho e é preciso dinheirinho (que é “good nós não have”, cit Mamonas Assassinas) para isso.

Há um novo mundo no jornalismo. E quem não o quer ver ou aceitar vai obviamente viver num mundo tão cinzento e bafiento quanto a tinta dos jornais que já ficou ressequida.
Eu, recuso-me!

PS: E a Barbara had me at Ryszard Kapuscinski, que é tipo, tipo DEUS!

Agora o texto da autora:

“Como regra, escrevemos sobre os outros. Hoje que fazemos 25 anos permitam-me que escreva sobre aquilo que fazemos — jornalismo. Oiço com frequência a frase “Dantes é que o jornalismo era bom”. De leitores novos e velhos, mas também, extraordinariamente, de jovens universitários que estão a estudar Jornalismo hoje.

Não posso estar mais em desacordo.

Não é claro a que exacto momento no tempo este “dantes” se refere. Se pensarmos em Portugal, não é certamente “antes” de 1974, quando os jornais eram previamente lidos pela censura oficial, embora haja quem acredite que as fintas que os bons jornalistas do Estado Novo faziam ao sistema do lápis azul valem mais do que qualquer bom jornalismo feito em democracia. O heroísmo desses tempos não é comparável. Arriscava-se a vida por escrever uma notícia, mas o jornalismo não era melhor por isso.

O “dantes” que se ouve nas conversas sobre “o estado a que o jornalismo chegou” costuma ir de 1974 (início da democracia) a 1995 (pré-história da era digital).

Foi durante estes 20 anos, dizem os cépticos, que se fez “bom jornalismo”. Segundo a tese, a Internet — e a superficialidade que ela trouxe — estragou tudo e foi por isso que os jornais deixaram de vender.

Não é verdade. O jornalismo não está em crise. O que está em crise é o modelo de negócio do jornalismo — coisas completamente diferentes.

Como disciplina, como necessidade, como bem comum e actividade de interesse público, o jornalismo está de boa saúde e recomenda-se. Em muitos aspectos melhorou, justamente, por causa do digital. Ou seja, a partir de 1995. Dez razões:
1. O jornalismo hoje é mais exigente porque o digital tornou a informação disponível em todo o lado e a toda a hora. Se quer ser relevante e útil neste tempo, o jornalismo tem de dar respostas com rigor e profundidade de forma ininterrupta. Tem de ser distintivo em relação à concorrência directa (a famosa “real comparative advantage”) e às redes sociais, blogues e sites como o Tá Bonito, o 12.º mais visitado em Portugal, acima do Expresso ou da RTP. Mais do que nunca o jornalismo tem de mostrar que vale a pena. O leitor, quando escolhe ler um jornal (em vez de outro) e quando visita um site (em vez de outro), tem de sentir que o seu tempo foi bem gasto. Por isso, a melhor das forças é o jornalismo de investigação. Não é por acaso que logo em 2009 o Huffington Post, um híbrido entre blog e jornal, “roubou” um editor de investigação ao Washington Post. Um dos efeitos colaterais desta nova concorrência é a perda de poder de influência de fontes institucionais e de agências de comunicação: no digital, a uniformização de conteúdos salta à vista. Todos a querem evitar. Por último, no meio do caos da nossa vida fluída, o jornalismo dá-nos hoje, mais do que nunca, o conforto de sentirmos que há alguma ordem no mundo.

2. Com o digital, o jornalismo ganhou novas ferramentas que ajudam a compreender melhor a realidade e aproximam — como um íman — os leitores dos temas relevantes: o data journalism, o vídeo, as infografias interactivas animadas, o live blogging, o multimédia que junta tudo e enriquece os conteúdos. Hoje conseguimos tratar temas com uma profundidade que há dez ou 15 anos só se conseguia ao nível das universidades. Isso obriga-nos a ser mais criativos.

3. Hoje o jornalismo chega a muito mais pessoas. O PÚBLICO tem em 2015 mais leitores do que alguma vez teve na sua história: quatro milhões de pessoas lêem o PÚBLICO por mês, muitas delas no Brasil, no Reino Unido, em Cabo Verde. O digital ajuda a passar fronteiras.

4. O jornalismo perdeu arrogância, sabe que tem de estar mais atento às pessoas, aos interesses dos leitores e ao seu saber. Basta ler os comentários dos leitores no nosso site. Muitas vezes quem nos lê sabe mais sobre o tema que a notícia trata do que o jornalista que a escreveu. Porque o leitor é testemunha do acontecimento, porque é especialista ou simplesmente porque o tema lhe interessa de forma particular e por isso leu e viu tudo o que havia a ler e ver nas últimas 48h e fez ligações que o jornalista ainda não fez.

5. Na era digital há mais transparência. O escrutínio que os leitores fazem ao nosso escrutínio — o novo poder dos leitores — obriga-nos a ser mais explícitos sobre os passos que damos na construção das notícias e na identificação da origem das próprias notícias. Há dois anos, o New York Times publicou no fim de uma reportagem a lista das 121 fontes consultadas para o trabalho, links para os documentos incluídos.

6. Dantes é que era bom? “Dantes”, se queríamos ter uma conversa estimulante e provocadora, tínhamos de marcar hora e ir a algum lugar. Hoje, os jornais desempenham o papel que os cafés tinham no século XIX — são um ponto de encontro dinâmico onde as pessoas encontram notícias, curiosidades e utilidades, ideias novas, argumentos e pessoas para discutir o que se passa no mundo.

7. “Dantes as redacções não estavam cheias de estagiários e jovens ignorantes.” Oiço isto às vezes. E até leio nos comentários no nosso site. Parece vistoso, mas não é bem assim. Que dizer da equipa da secção de Ciência do PÚBLICO? Em três jornalistas, há três licenciaturas: Jornalismo, Biologia e Matemática Aplicada. Do ISEG saíram vários dos jornalistas que escrevem sobre Economia. A mais jovem jornalista do PÚBLICO, que se juntou à equipa do Multimédia há um mês, fez Belas Artes e agora está a terminar um mestrado em Jornalismo na Universidade Nova. Na Política, há Direito e História. Na Cultura, há Filosofia, História de Arte, Literatura. Estamos rodeados de especialistas com muitos anos de experiência.
8. O digital fez acelerar o tempo do jornalismo. As notícias já não ficam à espera dos noticiários à hora certa, nem da edição impressa dos jornais do dia seguinte. Vamos sabendo o que se passa à medida que as coisas acontecem, não depois de terem acontecido. O tempo do jornalismo deixou de ser diferido e tornou-se imediato e contínuo. Ter rigor neste colete é um dos desafios da era digital, mas não é sequer um desafio novo na profissão. A agência de notícias France Presse foi fundada em 1835, a Reuters em 1851, a BBC em 1920.

9. A Internet forçou os jornais a regressarem aos textos longos e a escolherem mais o que publicam nas suas edições finitas — em papel. No digital, as notícias vão sendo melhoradas, actualizadas e aprofundadas ao longo do dia sem constrangimentos físicos. A cultura do “sempre ligado” que marca este tempo fez com que as revistas mensais se tornassem semanais, as semanais se tornassem diários e os diários passassem a dar notícias ao minuto. David Carr, do New York Times, fala na “compressão do jornalismo literário para dentro da voz do jornalismo diário”.

10. O jornalismo deixou de ter medo de quantidades maciças de dados. Porque os engenheiros e os informáticos entraram na equação, e os leitores também. No início de 2009 (um ano e meio antes de ouvirmos falar de Julian Assange), o Daily Telegraph recebeu um CD com dois milhões de documentos, incluindo milhares de despesas reclamadas pelos membros do Parlamento britânico, e começou a investigar. Mais tarde, o Guardian criou uma plataforma no seu site, publicou cópias de todas as despesas e pediu ajuda aos leitores. Em Junho de 2010, metade das 460 mil despesas tinham sido analisadas por 26.774 leitores (que as liam e preenchiam um pequeno inquérito). 170 mil foram analisadas nas primeiras 80 horas. Quase todos os deputados reembolsaram o Estado antes de a comissão parlamentar dar início e muitos não se recandidataram nas eleições seguintes. A outra escala, há o célebre caso da morte de um ardina durante uma manifestação anti-G20 em Londres, em 2009. Com o trabalho de um jornalista, do Twitter e de milhares de leitores em rede, uma semana depois foi publicado o vídeo que provou o crime: o homem passava, calmamente e com as mãos nos bolsos, por entre a multidão quando foi brutalmente agredido por um polícia.

O importante é o jornalismo não perder a sua essência. O jornalismo é a disciplina da verificação baseada na obrigação de procurar a verdade. É um trabalho feito para os cidadãos e por isso é um bem de todos. Este exercício de “back to basics” tem aplicação universal, do Congo ao Canadá. E podemos ir bem mais atrás, 2500 anos antes da era cristã. Desde Heródoto — a quem o genial Ryszard Kapuscinski chamou “o primeiro jornalista” — nada de fundamental mudou. Fazemos hoje as mesmas três coisas que Heródoto fez no século V a.C.: procurar informação, verificá-la e dar-lhe um sentido. Há mais uma coisa: sermos independentes.

Nisto, Clark Kent, o alter-ego do Super-Homem, decepcionou-me. Há uns anos demitiu-se do seu jornal porque não via futuro na profissão. Só lhe perdoo se com o tempo livre salvar o mundo. “Dantes” o jornalismo não era melhor. Era outra coisa, noutro tempo”.

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