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EU SEI QUE ERREI, MAS NÃO É PRECISO INSULTAR: O Dia em que Ia Levando uma Bofa no Supermercado

29 Julho, 2016

Escrevo-vos no rescaldo de um episódio mui sui géneris que acabou de acontecer…

Saí do trabalho à hora do almoço para ir a casa, passear a Concha, almoçar em modo supersónica e no caminho passar pelo supermercado para comprar umas coisas poucas lá para casa, que precisávamos. 

Quando cheguei ao mini supermercado que há ao pé de nossa casa, que fica numa estrada super movimentada, porém sem estacionamento, verifiquei que, como sempre não tinha lugar para deixar o boguinhas. “Vou ter que o deixar em segunda fila outra vez”, pensei. No entanto, e apesar de ser prática comum para os utilizadores do supermercado e do talho fazerem esta brincadeira, como estavam dois autocarros em sentidos opostos a circular na estrada, nesse preciso momento, percebi que não conseguia deixar em segunda fila e, por conveniência e urgência, coloquei o meu carro numa passagem de garagem. 

Quatro piscas. Saída em velocidade máxima, com a certeza de que ia “só buscar poucas coisas”, de que “ia ser super rápido” e de que “não ia haver problema nenhum, como das outras vezes”. Fui! 

De facto, as compras em si foram mega rápidas o problema foi quando cheguei à caixa. Pouco pessoal, horário já de férias, só um funcionário a atender, CAOS. Foi ai que esbardalhou o meu plano. Precisamente quando estava a passar as minhas coisas na caixa, comecei a ouvir uma buzina muito estridente e um carro impaciente. Mais buzinadelas e cada vez mais buzinadelas. 

Entra a senhora do café ao lado que pergunta “está alguém mal estacionado?”. Eu, que já estava a colocar coisas nos sacos disse “eu! eu tenho o meu carro numa saída de garagem”. “Ai, filha, vai lá ver que eu acho que é o seu carro…”. Petrifiquei. O meu coração disparou. E agora? Estava a ensacar as coisas, mais dois segundos e saía dali. Antes que conseguisse completar o meu raciocínio, entra um homem, bem vestido, alto, magro, com um semblante muito fechado e passada dirigida, que grita bem alto “de quem é o carro branco em frente às garagens!”.

Ui… Sabem aquele momento em crianças, que o adulto nos desmascara porque descobriu que andávamos a brincar com alguma coisa que não devíamos? Sabem? Foi essa a minha cara! Se pudesse tinha-me enfiado no chão. 

Disse prontamente: “Sou eu! O carro é meu. Peço imensas desculpas!”. 
O homem cada vez mais zangado: “Mas acha isso normal? Estou ali há imenso tempo à espera a buzinar”.
Eu: “Tem toda a razão. Peço imensas desculpas. Vou já tirar o carro…”

Nisto, a senhora da caixa faz-me sinal para pagar. Nisto eu olho para o homem e esboço um “posso só…”, para ele me interromper “é que nem pense nisso! Era mais o que faltava. Vá já tirar o carro!”.

Meti o rabo entre as pernas, como se estivesse a ralhar com a Concha, e fui logo tirar o carro, dizendo para a senhora da caixa “cancele a minha compra que eu já venho cá pagar”.

No caminho ainda levei mais na cabeça (com toda a razão!). Pedi sempre desculpas. Dei toda a razão ao senhor, se eu prego a máxima “não faças aos outros o que não gostas que façam a ti”, não posso ter este tipo de atitudes, por mais ingénuas ou sem maldade que possam ser, não posso ir sempre “à confiança”, que isso pode confluir com a liberdade e a vida dos outros. 

Tirei o carro o mais rapidamente que consegui. Deixei-o quase no meio da estrada em quatro piscas e segui a correr para o supermercado para voltar a passar as compras e pagar. 

Eis que quando entro novamente no supermercado deparo-me com o seguinte cenário: uma fila enorme junto à caixa. As minhas compras todas dispersas no tapete. E caras de pessoas que me queriam, no mínimo, MATAR. 

Engoli em seco, dirigi-me a correr para a caixa para logo começar a ouvir de um senhor que estava completamente descontrolado, aos berros a insultar-me. 

Ele: “Quem é que você pensa que é? Deves ter a mania! Deves ter a mania que és a rainha disto tudo!”

Eu: (tentando dizer que tinha dito à funcionária para cancelar a minha conta e começar a aviar outros clientes, nem consegui passar da primeira palavra) Mas eu disse…

Ele: O quê?! Ainda te vais justificar?! Filha da P***, vai para o c******, deves ser uma c***** 

E por ai em diante… Todos os insultos que vocês possam imaginar, nos maiores decibéis possíveis, com a máxima indignação. 

Decidi que não valia a pena justificar N.A.D.A.
Este senhor, claramente, estava a destilar o seu ódio, as suas frustrações, as suas indignações na minha pessoa, que se tornou, de repente, só porque tinha errado na questão do estacionamento, a pessoa mais horrível à face da terra e um saco de pancada muito fácil de atingir. 

E o que me custou mais foi a senhora da caixa não ser capaz de dizer nada. De assumir que a decisão de não atender mais ninguém, foi dela. De não cancelar as minhas compras, foi dela. E de não estar a colocar ordem no local de trabalho, foi dela. 

Nãooooooooooooooooooooo!!! Deixem lá a pobre rapariga carregar todos os insultos e ir para casa deprimir. 

Arrumei as minhas coisas com toda a velocidade. Paguei a conta e sai o mais rapidamente que consegui, ainda com os insultos incessantes de banda-sonora. 

Cheguei ao carro e desabei. Fartei-me de chorar. Whyyyyyyyyyyyyyyyyyy!?!??! Como assim universo?!?! (Tive aquele momento Calimero de escorregar pela parede e interrogar o universo) Eu já vos disse que o meu karma é imediato!??! Se faço alguma coisa menos bem, vem logo algum acontecimento dar-me um cheirinho de humildade. S.E.M.P.R.E!!!!

Olhem que eu sou toda objectiva, pragmática, super tesa, reivindicativa, não levo desaforo para casa, mas hoje aquilo tocou-me. Já diz a minha avozinha “quem não se sente, não é filho de boa gente”, e eu senti muito. Pode ter sido por já estar a acumular muito cansaço de um ano sem férias, por estar mais sensível, por estar a precisar de arejar a mente, sei lá! Mil razões! Mas isto bateu-me. 

Tocou-me porque acho que se errei com o estacionamento do carro, e pedi muitas desculpas ao visado por isso, prometendo NÃO voltar mais a fazer uma dessas (lição para a vida!), não fiz nada para merecer aquele rol de insultos e enxovalhos públicos. 

Depois, porque senti que as pessoas que estavam a assistir, faziam-no com uma passividade de quem está a gostar do espectáculo e isso chocou-me. Depois porque ninguém foi capaz de defender ninguém e perdoem-me as opiniões contrárias, mas quando os interlocutores vêem uma mulher, com um ar jovem, acham que ela é burra, mentecapta e podem insultar a qualquer preço, com toda a liberdade. Peço desculpa, mas é verdade…

Acima de tudo, porque senti que foi gratuito. Foi demasiado gratuito o insulto e a falta de respeito. 
Nada que eu pudesse ter feito àquelas pessoas merecia o que aquele senhor me estava a dizer. Foi completamente descontextualizado e desproporcionado, especialmente, quando nem tive culpa do sucedido na caixa. E isso eu não admito. Eu devia ter chamado a polícia, devia ter feito queixa do senhor e da funcionária, que nem sequer me defendeu. Mas sabem quando as coisas são TÃO surreais que nem sequer conseguimos reagir? Foi o que aconteceu comigo. Fiquei perplexa, nervosa, chocada. Senti-me ofendida, baixei a cabeça e calei-me.  

Se já presenciei muitos episódios nas caixas de supermercado que foram três mil vezes piores?!?! SIM! Mil vezes sim! Mas nunca tive vontade de chamar nomes a ninguém, nem de largar à chapada. É a vida. As coisas acontecem. Podem ser chatas, mas onde cabe a compaixão pelos outros? A solidariedade? A compreensão?

É por isso que quando se diz que “este mundo está perdido” eu começo a acreditar. E não é porque estamos a ser fustigados por ataques terroristas, porque cresce o auto-proclamado Estado Islâmico ou porque o Trump está na iminência de ser o próximo presidente dos EUA. Não! O mundo está perdido porque se perdeu a compaixão, o amor pelo outro, a compreensão, a solidariedade e a liberdade. Não num campo de guerra, mas no dia-a-dia, na caixa, no trânsito, na escola dos filhos, no jogo de futebol, nas finanças ou na praia.

Acho que temos todos que parar um bocadinho, respirar fundo, e pensar quem queremos ser e o que levamos de bagagem emocional para a fila do supermercado. 

PS: NUNCA MAIS VOU ESTACIONAR EM SEGUNDA FILA.
Marta Neves Dixit*

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Comments

  1. Joana Santos

    29 Julho, 2016 at 18:47 Responder

    A Marta não esteve bem. Mas também não era preciso o senhor da fila lhe ter faltado ao respeito. Estou solidária consigo!

    1. Marta Neves

      2 Agosto, 2016 at 16:39 Responder

      Obrigada!!!! Culpas assumidas, mas não havia necessidade de insultos!
      #TAMUJUNTAS

  2. Joana Sá

    29 Julho, 2016 at 20:02 Responder

    Oh minha nossa senhora, ainda há gente assim tão dispersa que acaba por concentrar todas as suas energias a insultar os outros?… não percebo.
    Noutro dia também me aconteceu uma coisa parecida, estava na Avenida da Boavista, no Porto, era um domingo quente e claro imenso trânsito. Não adiantava nada se o semáforo estava verde, o trânsito era tanto que muitas vezes passavam dois verdes sem avançar. De repente comecei a ouvir umas buzinadelas. Falei para o meu namorado "Não entendo esta gente que buzina, o trânsito está parado, não adianta buzinar e fazer confusão, ninguém vai passar por cima de ninguém…" e ignorei. Lá fomos avançando e a buzina não parava, até que olho pelo retrovisor e reparo que o carro que não parava de fazer barulho estava mesmo atrás de mim. Era uma mulher de meia idade e ainda gesticulava e mexia os braços num tom de "anda daí cara***" sempre que o semáforo ficava verde e eu não avançava de imediato! "Tipo ò filha o meu carro ainda não voa! Estão carros à minha frente, aqui ninguém passa por cima" pensei… levei aquilo na desportiva, não me irrito com coisas destas mas a tipa lá continuava toda aflita e nervosinha… A dada altura virei à esquerda, ela também. A estrada tinha duas faixas e ela toda mandada prontificou-se logo a sair de trás de mim, claro que eu não punha o pé no acelerador e aquilo já lhe estava a fazer comichão. O transito continuava igual, de repente a minha faixa avança mais que a dela e o que é que ela faz?? Põe-se no meio das duas faixas… A sério que ela estava a fazer aquilo?! Fiquei tipo WTF????? E o meu namorado disse "ela só faz isto até lhe aparecer uma tolinha ainda mais tola que ela que lhe dê uma lição". Há gente que só aprende assim mesmo!
    Mas ok, ali ignorei, desvalorizei e não chorei mas acho que se me fizessem o que te fizeram eu também chorava!! –'
    Mas esquece isso, foi o copo a transbordar por uma coisa parva, desvaloriza e segue em frente!*

    1. Marta Neves

      2 Agosto, 2016 at 16:41 Responder

      OBRIGADA JOANA!! É mesmo, as pessoas estão a destilar ódio e frustrações sem motivo nenhum. Temos sempre que manter a calma. Tentar ser o mais correctos possível e relativizar. Acho que é esta a palavra – relativizar. Obrigada pela partilha e pela solidariedade!!!!!! Beijinhos enormes. Resto de dia feliz 🙂

  3. da cidade pro campo

    29 Julho, 2016 at 20:54 Responder

    Querida, gente a destilar ódio todo o tempo a toda a hora. É gente infeliz que aproveita a cena perfeita para se afirmar. Um qualquer complexo que Freud explicaria, mas que eu numa análise muito pragmática e científica resumo a:são uns merdas, frustrados que passam o dia a ser maltratados pelo chefe. Vai daí lançam-se à primeira febra que lhes aparece. Os cenários ideais para estes animais atacarem são o trânsito e o supermercado… cum catano mulher, tu acertaste logo nos dois!
    Beijoca grande. Tu és muito mais do uma cena má.

    1. Marta Neves

      2 Agosto, 2016 at 16:43 Responder

      Ahahahahahahaha!!! O que me ri agora com o teu comentário!!! AHAHAHH! PODES CRER! Nem tinha pensado nisso. Acertei na mouche nos dois templos do azedume – trânsito e supermercado. Shame on me!!!! Vou estar muito mais atenta agora. Ahahha!! Obrigada por me fazeres rir e pela solidariedade. Dia muito feliz. HAVE FUN!

  4. Carina Ivo

    30 Julho, 2016 at 0:10 Responder

    De facto, a atitude inicial da Marta foi má e não o deveria ter feito. A segunda foi horrível. Ninguém tem o direito de enxovalhar assim alguém. Faltaram lhe ao respeito e isso, infelizmente, é um valor perdido à imenso tempo (e só tenho 25 anos). Sei na pele o que é lidar com isso todos os dias só porque tenho excesso de peso. Como se isso fosse motivo para deixarmos de respirar. É uma realidade ��

    1. Marta Neves

      2 Agosto, 2016 at 16:46 Responder

      Obrigada Carina pelo apoio e pela solidariedade. Concordo em pleno. A minha atitude inicial foi horrível, não o deveria ter feito sob nenhuma circunstância. Lição aprendida e não repetida. Mas a segunda foi a pior e ninguém tem o direito de nos fazer sentir assim. Não deixes. Luta contra isso. Não oiças essas pessoas que te criticam. Relativiza e cria a tua verdade, a tua realidade para te abstraíres dessas pessoas que infelizmente não sabem o impacto das suas palavras nos outros. Prá' frente é que é caminho. SEMPRE!!! Força!!! És linda, tenho a certeza absoluta!!! beijinho enorme. Dia muito feliz e encontramo-nos por aqui. Sempre! 🙂

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