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New in Town | “Campo de Ourique sabe a Nova Iorque”

6 Março, 2015

Era uma das minhas viagens de sonho. Eu sei que é um cliché, mas Nova Iorque era assim a MINHA cidade, a minha viagem na bucket-list. Eu sempre fui completamente fascinada pela cultura cinematográfica e televisiva americana. E como qualquer boa série ou filme memorável a acção passa-se na Big City, sempre com mil e uma estórias, personagens, acções, coisas para fazer, sítios novos para visitar, o epíteto da expressão que lhe deu nome — “a cidade que nunca dorme”.

Depois com a minha série fetiche (já aqui o disse que é “Sexo e a Cidade”) essa curiosidade passou a obsessão. Eu via os episódios e achava que também lá pertencia, que era de lá, que conhecia aquelas mulheres. Enfim… pancadas! Mas à parte das minhas mirabolâncias imaginárias, eu queria saber o que era viver em Nova Iorque e partilhar daquele estilo tão próprio de (sobre)viver.

Em 2011 concretizei esse meu sonho. Mal pisei the concret jungle quis fazer todas as coisas que fossem ou parecessem mais nova-iorquinas, desde as mais óbvias, turísticas, às mais pirosas. Visitámos todos os principais museus, vimos as exposições que estavam na berra. Passeei e corri no Central Park. Quis almoçar no The Loeb Boathouse Central Park, mas por incrível que pareça, estava fechado porque os trabalhadores estavam em greve. Aliás, deve ter sido a manifestação mais pacífica que já vi na vida, com os funcionários à porta do restaurante, educadamente, a distribuírem flyers com uma lista detalhada de todas as suas reivindicações, com enquadramento legal e tudo. Sooooo americanos! Fomos ao Ground-Zero (arrepiei-me tanto), visitámos a Ellis Island e a Liberty Island (o nosso Cristo Rei mete a minorca da Estátua da Liberdade a um canto. Tenho dito!). VI UM ESPECTÁCULO NA BROADWAY (foi assim a coisa mais espectacular de sempre). Conhecemos a sede das Nações Unidas, comemos um típico bife americano (o melhor que já trinquei), fiz compras em Soho, perdi a cabeça nas lojas multimarca, tirei fotografias em Times Square, vi o Naked-Cowboy e até subi ao Empire State Bulding, onde, genuinamente, achei que ia ser pedida em casamento, mas… não aconteceu… Pppffffff…

Tudo super tipical, trendy, nova-iorquino. A sensação que tinha era a de que já conhecia tudo aquilo. As cores, as pessoas, os locais, os cheiros (cheira tanto a comida nas ruas!). Foi uma sensação surreal. Era como se eu soubesse e conhecesse de memória iconográfica todos os locais, mas só agora é que os estava a experienciar. So wierd! Contudo, no meio desta excitação e conhecimento houve um momento que me marcou para sempre nesta viagem. O momento em que disse “estou em Nova Iorque e poderia ser nova-iorquina”. Era fim-de-semana e fomos passear ao Central Park ao final da manhã. Estava um dia lindo de sol e calor e muitas pessoas estavam no Parque a fazer variadíssimas actividades. Fomos andando, andando, descobrindo, sem ordem nem sentido e de repente, sem sabermos como, estávamos nas zonas dos campos de basebol. Estava a maior das animações. Eram mulheres e homens a competirem contra outros tantos, todos trajados a rigor, com camisolas super fofas, bonés e calções de equipa e era a animação, com aquele fervor americano tão deles. Sentámo-nos nas bancadas a tentar perceber o jogo (pelo menos eu!) e a comentar o que se ia passando. De repente olhámos para o lado e estavam umas mini roulotes a vender hotdogs e bagels. Só vos digo, minha gente, que aquele cheiro misturado com as imagens daquele jogo fizeram o click na minha memória e é algo tão simples, tão bonito, mas ao mesmo tempo tão presente que vai ficar para sempre guardado.
Ele comeu um hotdog e eu um bagel e foi ai que aquele sabor se tornou icónico. Bagel é Nova Iorque e Nova Iorque é bagel. Parece estúpido, mas não é.
Por isso é que fiquei de lágrimazinha no canto do olho (em bom Bonga) quando soube que Campo de Ourique tem, agora, um loja de bagels. Ahhhhhhhhhhhhh (som celestial).

Na Raffi’s Bagels a tradição é familiar e vem de várias partes do mundo há já várias gerações. Os donos são franceses, a receita é austríaca e os menus nova-iorquinos (super internacional). É por isso que nesta casa podemos encontrar receitas tradicionais do Leste da Europa, que permitem uma riquíssima combinação de salgado e doce: queijo creme, salmão marinado, pastrami, pickles, cheese cake e muito mais (acho que já estou a salivar).
Pensa-se que a receita dos Bagels terá nascido há aproximadamente 400 anos. A Áustria e a Polónia reclamam a sua origem pelo que não se sabe ao certo que país a terá criado. Who cares! Certo é que os judeus da Europa de Leste depressa a adoptaram e, desde essa altura, passou a fazer parte das suas tradições.

No início do séc. XX, quando esta comunidade iniciou a sua imigração para os EUA e Canadá, levou com eles a ancestral receita que depressa se tornou um sucesso ao ponto de ser considerada parte integrante da cultura gastronómica das cidades de Nova Iorque e Montreal. Check!

No Raffi’s o bagel (que é um pão que se mantém por muitos dias ao contrário da baguete francesa) pode ser vendido simples, com sementes de sésamo, de papoila ou misto, sempre caseiro. Pode ser pedido sem nada, pelo preço de 1€, ou com vários recheios, dispersos em cinco menus diferentes (que têm nomes de zonas de Nova Iorque).

Dando vida à memória e não esquecendo os mais importantes detalhes das receitas tradicionais, a Raffi’s Bagels adaptou os seus menus à realidade dos dias de hoje, para oferecer, com simplicidade e generosidade, uma verdadeira experiência gastronómica e sensorial (pelo menos para mim). Já sabem, fica na Rua Saraiva de Carvalho, n.120, em Campo de Ourique e está aberta de segunda a sexta das 8h às 18h e aos sábados das 10h às 16h.

E tal como na Raffi’s Bagels, eu também acredito que “comida é uma memória”. Se é…

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