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PORRA 2016… O PRINCE É que Não!

22 Abril, 2016

“Sometimes it snows in april”
1958-2016

Ontem não queria acreditar quando li a noticia da TMZ. Achei que pela natureza tablóide do meio de comunicação podia ser uma mentira, podia ser um falso alarme. Fiquei em sobressalto, em apneia, mas a Internet de hoje tem destas coisas, tem este imediatismo que não poupa os corações da desilusão. Em menos de 10 segundos começaram a cair em catadupa no feed mais e mais noticias de todos os meios de comunicação a dar conta da morte não-anunciada de Prince.

Era verdade. Já não havia volta a dar. Prince Rogers Nelson morreu aos 57 anos, o corpo foi encontrado na sua propriedade de Paisley Park, em Minnesota. E agora? E agora…

“My name is Prince, and I am funky / My name is Prince, the one and only”, era assim que se apresentava no seu álbum Prince de 1992 e foi com esta bazófia merecida que me conquistou ao primeiro acorde que ouvi.

A minha história com o Prince remonta a momentos de balneário, cheira a suor e a praticável usado. Ok, não está a soar nada bem, mas acompanhem, por favor.
Eu não devia ter mais do que 7 ou 8 anos e duas vezes por semana lá ia eu saltar, pular e brincar para o pavilhão de ginástica onde a minha mãe treinava com as amigas. E eu A.D.O.R.A.V.A. Podia saltar, pular à vontade sem que ninguém me dissesse nada (como era de costume) e a minha mãe podia descansadamente fazer ginástica e ter o seu momento fitness da semana, enquanto dava umas gargalhadas com as amigas.

E há coisas que não nos saem da mente (envelhecer é lixado, pah!). Momentos, imagens, cheiros e sons. Lembro-me disto perfeitamente. O instrutor chegava e colocava a cassete (sim eu sou velha, ok!?) no enorme rádio de chão, pousado em cima de um bando corrido de madeira de ginásio e ouvia-se para o aquecimento sempre os mesmos acordes:

This is it (tan, tan)
It’s time for u to go to the wire
U will hit
Cuz u got the burnin’ desire
It’s your time (Time)
U got the horn so why don’t u blow it
U are fine (Fine)
U’re filthy cute and baby u know it
Cream
Get on top
Cream
U will cop
Cream
Don’t u stop
Cream
Sh-boogie bop

E lá estavam elas, em leggins e t’shirts dos anos 90 a aquecer ao som de Prince e eu dava os meus pinotes, fazia os meus dance moves e era feliz.

50 minutos depois a cassete, já no lado B, chorava um “Purple Rain”, bem suado, para alongar o cansaço. E era sempre assim. Todos os treinos. Todas as semanas. E Prince ficou-me na pele, no suor e na minha memória.

Não muitos anos depois, lembro-me também de estar em casa de uma amiga dos “tempos-livres”, cujo pai tinha uma loja muito conhecida de vinis e cassetes na minha cidade natal, e de estar a passar na TV uma cassete, que o pai dela tinha orgulhosamente colocado para ver a última tour de Prince.

Enquanto brincávamos na sala os meus olhos iam fixando a televisão e era impossível ficar indiferente ao que se passava no ecrã. Um homem, vestido de forma excêntrica, semi-nu, com plumas cor de rosa, saltos-altos a performar movimentos quase sexuais com duas mulheres lindíssimas em cima de um palco cheio de músicos geniais e back up singers super potentes. Fiquei viciada.

Com os anos a passarem, fui procurando mais, fui sabendo mais, fui ouvindo mais sobre este mini-personagem que quebrou barreiras raciais e sexuais numa América estereotipada, que foi um multi-instrumentista genial, com uma compulsão pela escrita, produção e composição de música. Era um génio. Foi um génio, lado a lado com James Brown (sua inspiração) e Michael Jackson, pseudo-arqui-rival da música pop.

Mas foi muito mais. Foi visionário e extraordinário. Diz-se que terá um cofre em sua casa com milhares de horas de gravação de músicas que nunca viram a luz do dia. Componha compulsivamente para se alhear de uma realidade que dizia já não conhecer. Falava, obviamente, dos novos tempos musicais que se vivem, das novas dinâmicas de produção e da perda de controlo dos artistas para a grande indústria da música. Isolou-se depois dos sucessos da década de 80 e 90 que o imortalizaram para sempre como um dos maiores artistas dos últimos 40 anos, com 7 Grammies e 1 Óscar.

Eu queria tanto tê-lo visto ao vivo. Ficas a dever-me esta, Prince. Falhei miseravelmente nas tentativas de estar presente na sua última vez em solo português, em Agosto de 2013, quando deu um concerto surpresa no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Antes, tinha sido o cabeça de cartaz do festival Super Bock Super Rock, em 2010 (um concerto que contou também com a participação de Ana Moura).

Esteve no nosso país pela primeira vez em 1993, num concerto no antigo estádio de Alvalade. Em 1998 esteve no Pavilhão Atlântico — numa visita a Lisboa que incluiu uma passagem surpresa pela discoteca Lux.
Tantas oportunidades. Nunca consegui ir. Shame on me!

E agora?! Agora algo mudou.

Não me chamem saudosista ou agarrada ao passado, mas algo mudou, está a mudar. Não porque acho que os artistas de hoje são menores que os anteriores, mas porque a música está a mudar. Já não se fazem músicas como as de Prince, como as de Michael Jackson, como de Bowie, como de James Brown, como de… muitos outros. Tem que ver com isso, com o processo de produção, com a música, com os músicos, com a lealdade aos instrumentos, com a irreverência de outros tempos que permitia quebrar barreiras e fazer história.

Se com Micheal Jackson eu aprendi a dançar, com Prince eu aprendi o que era ser COOL e isso é grande parte do legado corporal e musical que tenho hoje em mim. Ele era cool, era sexual, era funkeiro, tinha qualquer coisa de hipnótico que nos embriagava, tinha soul na voz e na música e quando uma música nos faz saltar o ombro é por é muito boa.

Agora só falta acabarem com a Tina Turner, o George Micheal, a Madonna, os Rolling Stones, o Stevie  Wonder, Aretha Franklin e tantos outros, para perder as minhas bases, as minhas origens, as minhas memórias.

2016, já chega, ok!?

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Comments

  1. MGG

    22 Abril, 2016 at 16:15 Responder

    "Agora só falta acabarem com a Tina Turner, o George Micheal, a Madonna, os Rolling Stones, o Stevie Wonder, Aretha Franklin…" Já pareces o Sr. do telefonema!! Sai para lá mau olhado!!!

    1. Marta Neves

      25 Abril, 2016 at 10:02 Responder

      AHAHAHAHAH!!! Totalmente!! SAI! SAI! SAI! Já chega. Enough is enough!

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