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TELEVISÃO EM PORTUGAL | A televisão portuguesa trabalha para a sua própria extinção. O Observador diz que sim, eu digo que não!

16 Junho, 2015

(Aviso: este artigo está beeeeeem grandote. Por isso, respirem fundo e não me odeiem, ok?! Tinha muita coisa para dizer!!)

Ora aqui está um tema que eu gosto particularmente de discutir. É um assunto que sempre me fascinou pela minha paixão pela televisão, mas também pelo meu percurso profissional e académico.

Quando vi a chamada para o artigo no Facebook fiquei logo curiosa. Tema: TELEVISÃO EM PORTUGAL. Boa! Problemática: A televisão portuguesa trabalha para a sua própria extinção? Que boa interrogação. Vou ler. Li. E não poderia discordar mais do artigo. A minha não-concordância não tem que ver única e exclusivamente com o saber empírico, de estar no terreno, de contribuir para a produção de conteúdos televisivos que se incluem nessa grelha diabolizada no artigo, como também encalha nos constructos teóricos que acabei por adquirir nestes anos de estudo académico sobre o tema e que são completamente contrários aos enunciados pela autora.

O que o artigo de opinião (é certo) apregoa é aquilo que todos nós, do nosso senso comum, sentimos ou percepcionamos quando olhamos a cru para a nossa actual grelha de programação dos canais generalistas portugueses. Que me desculpe o Observador, mas é um olhar muito simplista sobre um mercado bastante complexo e uma área extremamente competitiva que para além de cumprir o papel de informação, de entretenimento e de educação, tem que se cumprir comercialmente. E é impensável pensar em todas estas esferas em separado. É simplesmente utópico. Não existe e não vai existir.

Outra coisa muito importante para se perceber televisão (e as minhas seguintes observações ao artigo), é que quem vê televisão, especialmente os 4 canais portugueses, não sou e, provavelmente, não são vocês aí desse lado que me estão a ler. Este foi um dos grandes mitos que tive que deixar cair e que me custou integrar. A forma como eu vejo televisão nada tem que ver com a forma como outras pessoas vêem, o que varia inevitavelmente com os dados etnográficos – idade, localização geográfica, estrato social, profissão, etc. E não é uma melhor ou pior maneira de ver televisão. É só diferente. Há mercado para tudo e todos, mas a questão impõe-se: que mercado?

Do universo que está a ler este post:

– Quem de nós, hoje, vê durante o dia a RTP, a SIC ou a TVI?! Arriscaria dizer muito, muito, muito poucos.

– Quem é que vê os telejornais à hora que passam nos canais generalistas? Mais pessoas, mas ainda poucas.

– E quem é que vê os mesmo canais em Prime Time, com as suas 1.500 novelas ? Se calhar, muito poucas pessoas.

O que é que isto nos diz? Que se calhar a televisão generalista não está pensada para nós e nós também não pensamos nela como escolha televisiva. É a chamada pescadinha de rabo na boca. As televisões perceberam quem era a sua audiência, estudaram a audiência, os seus gostos, as suas preferências, as suas rotinas – e acreditem, estes estudos são de grande investigação e complexidade, porque do seu resultado estabelecem-se grelhas programáticas, mas também define-se a comercialização e sem isso não há televisão para ninguém – e adaptaram as suas grelhas de programação ao que a população está mais receptiva. Perante essa programação, quem gosta continua a assistir e quem não gosta procura outros conteúdos.

Foi o que nós fizemos ao longo destes anos! Primeiro com a chegada do cabo e depois com a integração do visionamento televisivo através da internet e dos nossos próprios computadores pessoais. Foi uma migração natural com o surgimento das novas tecnologias e com a sua incorporação na nossa vida social. Eu, hoje, vejo televisão de forma completamente esquizofrénica. Vejo um programa que passou num domingo, à terça-feira à noite. Vou recuperar um pedaço de uma reportagem que deu no jornal da noite anterior para ver à hora do almoço e apenas vejo as minhas séries preferidas no computador, por streaming. Já imaginaram o que isto faz a um programador de televisão?

É impossível agradar à nova geração que se relaciona com os produtos mediáticos de uma forma completamente análoga que a geração anterior. E temos que aceitar: os quatro canais, a televisão generalista está pensada (e muitooooo bem pensada) para as pessoas que realmente a vêem. Se existissem montes de séries americanas, da moda, a passar em vez das telenovelas vocês iam ver? Não, não iam. Sabem porquê? Porque nós preferimos vê-las no nosso computador, às horas que nos dão mais jeito, de acordo com a nossa disponibilidade. Não ia resultar na mesma. E porque é que as séries que nós gostamos não podiam passar em Prime Time na televisão generalista? Porque, ou eram dobradas para português, ou eram discriminação audiovisual. Temos que perceber que há muitas pessoas que não sabem ler em Portugal, já para não falar que esses produtos não iriam servir, nem ajudar a cultivar e a desenvolver a produção portuguesa.

O que me leva a outro ponto do artigo do Observador – a qualidade da ficção portuguesa.
Eu não sou seguidora assídua da ficção nacional, mas tenho que estar bem atenta porque faço parte de uma equipa de investigadores portugueses que escreve para o OBITEL – Observatório Iberoamericano da Ficção Televisiva – e, por motivos de investigação e académicos tenho que estar em cima do acontecimento. Tenho acompanhado a evolução da ficção em Portugal e não há nada que me deixe mais orgulhosa. Estamos a fazer produções que são das melhores do mundo. E não preciso de dizer, está à vista. Acham que ganhámos Emmys porquê? Pelos nossos lindos olhos azuis? Nada disso. É uma competição feroz e nós estamos na linha da frente, quer em termos da qualidade dos guiões, das narrativa, quer em termos técnicos.

A autora do artigo afirma que “A pior praga são as telenovelas, um disparate emitido durante horas, horas e horas em todos os canais terrestres durante a semana toda. Aos guiões falta quase tudo, de timing a interesse. Tudo consiste em histórias de homicídio, vingança e discussões de dinheiro e/ou amantes e, sem qualquer explicação, toda a gente parece ter criados que usam fardas. A representação é escandalosamente horrível, dando à nação (e a todas as nações onde se vendem as telenovelas portuguesas) a ideia de que a ficção televisiva é isto. Mas isto não é ficção televisiva. Nem é representação. Os solilóquios são especialmente hilariantes: os actores entram num quarto e falam com eles próprios. É que na telenovelalândia portuguesa não há diálogos internos expressos através da representação, porque ninguém sabe representar”.

Por onde começar… nem sei…
A autora acha que os nossos diálogos são piores que as telenovelas que são produzidas na América Latina, a ainda grande referência de ficção? Acho melhor começar a ver novelas, porque esse pré-conceito não poderia estar mais longe da realidade.

Se as histórias são de homicídio, vingança, discussão, traição, amores e desamores é porque cumprem o seu papel na perfeição. O género novela é mesmo assim. São as grandes temáticas que cativam as audiência e são também as grandes áreas da vida que permitem a aproximação com o espectador. Faz parte da construção narrativa das novelas estas temáticas. Mas isto está no mais básico livro sobre o género.

Se ninguém sabe representar porque é que cada vez mais actores querem pertencer ao universo da novela? Então, se ninguém sabe representar em Portugal porque é que hoje os actores migram sucessivamente do teatro para a televisão, da televisão para o cinema e por todas as outras plataformas ao seu dispor?
As novelas portuguesas estão de tal maneira bem feitas que perante a concorrente brasileira há uma preferência pela produção nacional. Acham mesmo que os portugueses são estúpidos? Claro que não. O sucesso das nossas novelas está ao alcance de todos e só não vê e não reconhece quem não o quer fazer.

Outra coisa que aprendi neste tempo de guionista para televisão é que as pessoas para as quais escrevemos e para as quais comunicamos não são burras, estúpidas ou sem cultura. Este é o maior dos maiores dos erros (e preconceitos). Quem está em casa a ver qualquer programa televisivo tem uma cultura de televisão que denota a léguas erros e produtos não tão bem conseguidos. É por isso que uns programas têm sucesso e outros não. Se nós gostamos deles? Isso é outra coisa, mas não podemos dizer que são para pessoas burras ou menores. O espectador é muito inteligente. Mais! Está habituado a ver televisão a sua vida toda, por isso tem poder critico.

Quando no artigo se diz “As horas do dia enchem-se com “shows” fúteis, feitos para velhotas pouco curiosas e capazes de se pasmarem perante muita coisa. As audiências no estúdio são compostas de mulheres de meia-idade ou velhotas com penteados grandes e pullovers justos, que seguem as deixas dos apresentadores para se rirem ou fazerem caras tristes nos sítios certo”, não poderia estar mais em desacordo.

Primeiro, porque é que esses “shows” são fúteis? O que faz deles fúteis? Se pensarmos nos programas da manhã e da tarde eles cumprem na perfeição a sua construção de género. São do género infoteinment, que pela sua designação têm a função de entreter e informar. Bingo! É o que estão a fazer. Todos os dias levam temas de interesse público, colocam a sociedade civil a debater temas muito importantes, que intervalam com momentos mais leves de entretenimento. Quem os vê são velhotas pouco curiosas? Que ideia tão feita. Nada disso. A minha avó vê os programas da manhã e da tarde e ela é tudo mesmo “pouco curiosa”. Estes programas servem para aproximar as pessoas da televisão, dos actores sociais e dos temas mais queridos do público. É mau? Não! É muito bom! Estudos internacionais indicam que o género talk show fez mais pela educação da audiência do que muitos documentários ditos maiores nesta arte de informar fizeram ao longo de décadas. Esta ideia é só mesmo um preconceito muito grande em relação a este tipo de formatos.

Desafio-vos a ligar a vossa televisão num desses programas e a analisar o público em estúdio. Hoje, já é um público heterogéneo, com homens e mulheres. E longe vão os tempos das “velhinhas em estúdio”. Os formatos modernizaram-se, as pessoas vão bem vestidas para a televisão (porque querem muito aparecer) e percebeu-se que são também pessoas novas, jovens, em idade laboral, que vêem estes programas, em parte, também, devido à elevada taxa de desemprego em Portugal (mas não me vou alongar nesta reflexão).

Agora, se há neste género formatos mais bem conseguidos que outros? Sem dúvida! Mas aí o povo é soberano. Vemos as audiências e percebemos as preferências dos portugueses. Fazer um programa todos os dias, 3 horas seguidas, com conteúdos que sejam interessantes e que cativem uma audiência ávida de informação, com uma concorrência aguçada ao virar do canal, não é nada menor. É correr a maratona da televisão. Muitos querem, mas muito poucos conseguem. É um trabalho hercúleo, de grande sapiência, determinação e criatividade.

Diz também o artigo que “as pessoas que vêem e gostam disto não conhecem outras coisas, e continuam a ver e a gostar, e a acreditar que isto é que é televisão. As velhotas sem curiosidade  devem gerar rendimentos suficientes para que os canais continuem. Para já. Mas no futuro, o que poderá acontecer?” Eu acredito que as pessoas que vêem e gostam, gostam e pronto. Quem é que pode achar que hoje em dia as pessoas não têm acesso à informação e a outros conteúdos? A minha avó tem outros canais de televisão, mas escolhe ver aqueles programas, porque são aqueles com os quais se identifica mais.

Não são só as velhotas a ver os canais generalistas. No estudo recente que fizemos para o OBITEL percebemos pelos dados de audiência que a população que está a ver ficção em Portugal é maioritariamente na faixa dos 40 anos. São velhos? Não! E em termos de género, temos aproximadamente, 30% de população masculina e 70% feminina. Acham assim tão dispare? Nop! Hoje, a novela portuguesa voltou a estar nos sofás das famílias portuguesas. Acreditem. É um facto. Casais novos estão a juntar-se em frente ao televisor para ver as novelas da SIC e da TVI. E eu conheço muitos. São meus amigos, são pessoas instruídas, que trabalham, que têm acesso a informação, que são inteligentes e, espantem-se, muito “curiosos”.

“O que será quando a geração das velhotas sem curiosidade desaparecer, para ser substituída por uma geração mais sofisticada que nunca viu a televisão terrestre porque está agora a ver os canais americanos?”. O que é “uma geração sofisticada”? Mais uma vez encano no preconceito. Eu vejo séries americanas e sou, por isso, sofisticada? A minha mãe que gosta de ver o MasterChef na TVI ao sábado à noite e não é? Hum… que interessante… E as gerações mais novas que vêm o Ídolos, da SIC, religiosamente ao domingo à noite na generalista não são sofisticadas? Não consigo compreender onde é que está o critério para a sofisticação…

“Na televisão terrestre, não há uma evolução visível nas espécies de programação feitas”. Certo. Neste ponto concordo. Descobriu-se uma fórmula que “resulta” e agora estamos em contra-programação sucessiva nas audiências para concorrer com os mesmos produtos televisivos. Também acho que esta programação horizontal não é muito saudável a longo prazo, mas neste momento está a resultar. Para colmatar este facto é que deveríamos ter uma RTP à lá BBC para cumprir a verticalidade programática que se lhe seria esperada. Mas isso daria outro novo post gigantesco! Outras núpcias, portanto.

O artigo termina com a frase: “Um dia, a pimbalhada vai deixar de cativar as pessoas, ninguém ligará mais para as linhas de valor acrescentado para ganhar €1000, os “game shows” deixarão de receber autocarros das aldeias e talvez, um dia, as pessoas comecem a não  apreciar a humilhação das audições dos “talent shows”.
É por isto que acho que a televisão portuguesa não está em extinção. De todo! Sabem porquê?

Porque as pessoas vão continuar a querer pertencer à televisão. Entrar dentro do ecrã é o que mais as pessoas querem. Por isso é que as inscrições para os talk shows e para talent shows quebram recordes todos anos. Por isso é que os cantores “pimba” estão a conseguir sobreviver porque conseguem actuar nos programas semanais que lhes dão visibilidade. Conseguem pagar contas. É por isso que voltámos a ter um “game show” em acess time, The Money Drop, que conquistou novas audiências e fez história na televisão.

Acham mesmo que a televisão vai acabar?! Não!
Vai modernizar-se. Vai adaptar-se às suas novas audiências, mas não vai acabar. E é por isso que sou fascinada por ela. Todos lá cabem dentro e todos lá querem pertencer.
À autora do artigo do Observador só posso dizer que é melhor continuar a ser sofisticada e a ver as suas séries americanas no computador, porque definitivamente, a televisão portuguesa não é para si.
Já dizia o outro: “The revolution will be televised”. 

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