BATE-PAPO

TEMOS QUE FALAR SOBRE ISTO | CHIARA FERRAGNI E AS AMIGAS “RECHONCHUDINHAS”

17 Julho, 2018

 

Ora bem, vamos lá falar sobre este assunto, MAIS UMA VEZ, até porque estamos (a passos bem pequeninos) em pleno Verão, com os corpos a pedir um pouco de sol, um pouco de biquini, um pouco de bronze, um pouco de areia e um pouco de nudez.

 

O problema é que, há uns belos anos atrás, quando íamos à praia apenas tínhamos que nos preocupar com o que os nossos amigos mais próximos iam achar da nossa forma física ou, no limite, quem estivesse num raio de 10 metros, o que no meu caso de miopia-em-negação era bem menor.

 

E não havia mal nenhum. Ninguém tinha pruridos em levar uma sandoca para o areal, de a acompanhar com um pacote de batatas fritas e refrescar-se com um Sumol de ananás, rematado com uma bola de berlim e um Corneto a caminho do carro.

 

Podia haver uma gordurinha mais chata, um pneu a querer sair, uma coxa menos trabalhada, mas estávamos tranquilos nessa exposição – ela era circunscrita ao nosso circulo de amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos com quem nos cruzávamos na praia e tentávamos encolher a barriga para fazer um pequeno abdominal só, e só, nessa altura de cumprimentos à beira-mar. Ponto.

 

O problema é que agora não é assim.

As praias encheram-se de biquínis da moda, de chapéus fashion, de toalhas de 100€, de almofadas com padrões apetecíveis, de tupperwares de última geração com quinoa biológica, pepino do campo e salmão selvagem para o almoço, e de telemóveis supersónicos com imagens captadas em HD para fotografias encenadas à beira-mar, com um por-do-sol calculado ao milímetro e um corpo há muito trabalhado para “aparecer” nas redes sociais.

 

A pessoa tira a fotografia, coloca o filtro, dá um retoque aqui e ali, partilha nas suas redes e começa o círculo vicioso de perpetuação de imagens irreais que a Internet elogia e recompensa. São as regras do jogo. Não queremos ver corpos reais, queremos ver corpos fenomenais.

 

E depois seguem os comentários – os elogiosos e os arrasadores. Os que gostaram do ângulo, do biquíni, da luz, do conceito, da perna, da celulite (ou a não existência dela), do abdominal, do biquíni, e os que não gostaram de nada. Desses, há os de body shaming.

 

Se se pensava que o body shaming só acontecia quando a pessoa evidenciava um tipo de corpo que fugia ao padrão considerado aceitável para as redes sociais, hoje sabemos que não é assim. A critica despudorada ao corpo de alguém acontece SEMPRE que alguém acha, no seu perfeito juízo, que deve julgar a forma como a pessoa é. E isso acontece se a pessoa for gorda, magra, alta, baixa, popozuda, seca, roliça, uma tábua. Já não há critério para o insulto. Vale tudo!

 

Muito se fala e, como a área do comportamento é uma que me entusiasma e fascina, e se escreve sobre esta questão da perpetuação da imagem e da consequente manipulação do real na saúde mental dos internautas e os estudos são peremptórios – a forma como estamos a olhar para nós e para o mundo está completamente distorcida.

 

O que me leva ao artigo e caso que vos queria trazer no post de hoje.

 

Para quem não conhece a protagonista, Chiara Ferragni é a mega, super, ultra Blogger-das-Bloggers a nível mundial. Foi a primeira a entrar para a lista da Forbes por ter feito o seu primeiro milhão com o business do Blogue “Blonde Salad”, mundialmente conhecido e uma inspiração em estilo e beleza, e até aulas sobre gestão empresarial deu em Harvard. Clap, clap, clap.

 

Goste-se ou não do seu posicionamento é inegável o que já alcançou nesta área e a quantidade de pessoas que já impactou com o seu trabalho.

 

A Blogger italiana de 31 anos, mãe de primeira viagem, foi surpreendida, no ano passado, quando em pleno concerto do seu namorado, Fedez ajoelhou e fez o pedido de noivado que deixou todos em delírio nas bancadas.

 

Para festejar a despedida de solteira em grande, Chiara voo até Ibiza com as suas melhores amigas para um fim-de-semana de animação, festa e momentos inesquecíveis, apenas interrompidos pelo bafão que uma simples fotografia à beira da piscina com o grupo de BFFs provocou.

 

Todas alinhadas à beira, felizes, em fato-de-banho temático, giras e plenas, jamais pensaram que iam gerar a controvérsia do momento. Após publicação da foto no Instagram os comentários sucederam-se.

 

E contrariamente ao que se pensava não foi nas redes que o comentário azedou.

O Corriere della Sera, um histórico jornal italiano de tiragem diária, com uma circulação média de 410 mil cópias por dia, é um dos jornais mais antigos de Itália e é um dos jornais online italianos mais visitados, atraindo mais de 1,6 milhões de leitores todos os dias, publicou um artigo sobre a despedida de solteira da influenciadora descrevendo as amigas da blogger como “redondas, não muito magras”.

 

Vou colocar a imagem que provocou este comentário do jornal:

 

 

 

Em que mundo vivemos nós quando estas raparigas têm que ver a sua forma física, excelente, descrita como “redondas, não muito magras”. Que mundo dissimulado é este?

Desde quando é que estas miúdas não estão bem?

Desculpem se não pesamos 40kg e fazemos editoriais para a Vogue, mas algo está de muito errado com as pessoas. E o pior é que este comentário não apareceu vindo de um perfil anónimo do Instagram ou do Facebook, não, este texto foi escrito por um profissional e autorizado por um editor para ser publicado num órgão de comunicação social que deveria ter um código ético que não permite emitir juízos de valor nem perpetuar preconceitos.

 

É que o limite já não está circunscrito ao que cada pessoa, individualmente, nas suas redes, que por mais doentio que seja é uma opinião pessoal que cabe ao gestor desse perfil aceitar ou não esse comentário, está já a transbordar para as instituições que têm um dever moral de informar objectivamente o leitor.

 

E isto é grave.

 

Tão grave que as criticas começaram a jorrar na caixa de comentários do jornal e chegaram até aos mais de 13 milhões de seguidores da blogger que decidiu responder ao artigo do Corriere na sua página de Instagram:

 

“As minhas amigas foram descritas como ‘gordas’ pelo maior jornal italiano, escreveu Chiara, referindo-se ao artigo que tinha a expressão na legenda da foto.

 

“Acho nojento passar-se uma mensagem como esta, especialmente quando tantas raparigas se debatem com a identidade dos seus corpos e com a sua autoestima”, continuou na sua publicação. Os comentários de apoio sucederam-se e, pouco tempo depois, o jornal decidiu alterar o adjectivo “redondas” por “atléticas”. RIDÍCULO!!!

 

Porque é que ainda sentem necessidade de adjectivar?!?! Why!!??!?!

 

A notícia tomou de tal maneira proporções gigantescas que até uma das suas amigas da viagem Rachel Zeilic decidiu manifestar-se no seu Instagram por este body shaming gratuito: “foi muito difícil para mim publicar esta fotografia. Não encolhi a barriga quando ela foi tirada, por isso vocês conseguem ver a minha barriguinha (cheia daquelas massas deliciosas que tenho comido nestas últimas semanas na Europa), mas hoje o maior jornal de Itália publicou um artigo sobre a despedida de solteira da Chiarra a chamar as amigas dela gordas”.

 

 

NOJENTO!

Desde quando é que alguém tem que justificar o seu corpo a alguém?!?!?!

 

Temos que mudar isto e a mudança, por muito brega que esta frase possa parecer, tem que partir de nós. Cada um de nós tem que influenciar (bem escolhida esta palavra) quem está à nossa volta impedindo que este tipo de comentários e de visões distorcidas consigam ter palco.

 

Porque senão vamos viver encurralados nestes supostos corpos e imagens que devemos possuir para podermos publicar uma foto nossa com as nossas amigas num dia muito feliz das nossas vidas. E isso não pode simplesmente acontecer. Temos que ser quem somos, sem termos de ter vergonha de não sermos quem gostaríamos que fossemos e que os nossos amigos fossem.

 

Analisem este pensamento absolutamente doentio – a Chiara só porque é gira, magra, milionária só pode ter amigas que se enquadrem no seu padrão? Não pode ter amigas gordas, baixas, remediadas e com prestações do carro e da casa para pagar? Desde quando é que a amizade é medida pela coerência imagética do feed do Instagram?!

 

Minha gente, vamos parar! Isto só pode NÃO SER SAUDÁVEL!

 

Adorava, adorava que este/esta jornalista publicasse uma foto sua na praia também.

 

Ah, e já agora, se há o body shaming não dá para haver também o mental shaming?

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